James May e os manuais de instrução

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As instruções na lata diziam: “Aplique uma bola de espuma do tamanho de uma noz na palma da mão.” Bem, eu pensei, isto era ridículo.

Se eles quisessem quantificar a quantidade de espuma necessária para um barbear, então com certeza eles poderiam ter criado algo mais claro do que “do tamanho de uma noz”. A humilde noz, afinal, não está sujeita às regras da British Standards ou da Système International d’Unités. As nozes variam em tamanho.

Mas quando pensei um pouco a respeito, percebi que não conseguia criar algo melhor. Uma bola do tamanho do fornilho do cachimbo de um fabriqueiro? Uma bola um pouco maior que uma bola de gude colorida grande? Uma bola do tamanho daquela parte pontuda do seu cotovelo, mas talvez um pouco maior? Acho que a noz era, de fato, uma excelente referência volumétrica.

No entanto, ainda não parecia certo. Eu tenho uma cabeça um tanto grande, e toda a parte abaixo do meu nariz e as laterais, mais a região abaixo do meu queixo, precisam ser barbeados. Eu não fiz os cálculos, mas calculo que cerca de 20% da superfície da minha cachola precisa ser coberta com espuma. Acho que uma bola do tamanho de uma tangerina parece ser mais coerente.

Então, eu apliquei uma bola do tamanho de uma tangerina na minha mão, mas não acaba nisso, acaba? Ela cresce. Eu não sabia disso, porque eu normalmente uso creme de barbear. Ela continuava crescendo, e acabei jogando-a na privada e tentei dar descarga nela. Isso fez com que ela crescesse mais.

Este é um prefácio bem elaborado para a minha pergunta deste mês, que é: devemos ler as instruções? Há uma linha de raciocínio que diz que não devemos, porque não é coisa de homem. Mas, espera um pouco: aposto que os astronautas leram as instruções da Saturn V e do Módulo Lunar de cabo a rabo, e você não diria que eles são fracos.

Acho que essa cultura de não ler as instruções tem suas raízes na esparsa experiência tecnológica que a maioria das pessoas têm. A maioria de nós apenas tem que lidar com aparelhos eletrônicos. Um GPS, digamos.

Eu nunca li as instruções de um GPS. Aparelhos eletrônicos são incrivelmente lógicos de uma maneira que apenas coisas binárias conseguem ser. Uma linguagem simples para programar algo como isto, incluindo o aparentemente desconcertante rádio-relógio de um quarto de hotel, foi desenvolvida ao longo de várias décadas. Você aperta um botão, aperta dois botões juntos, ou aperta e segura um botão. Não há muitas complicações, e você consegue compreendê-lo facilmente. A não ser que você seja o Clarkson.

E mesmo assim, se você cometer um erro, o pior que pode acontecer é você acabar em algum lugar apavorante, como as Cotswolds. É irritante, mas que não arrisca sua vida. É tentador concluir que as instruções são inúteis.

Mas aqui cabe um aviso. Este desdém geral por manuais de usuários, motivado pela nauseante familiaridade com bugigangas digitais, não deveria ser permitido no restante das nossas vidas.

Por exemplo, semana passada recebi um torno mecânico que havia encomendado. Máquinas operatrizes não perdoam nenhum erro, e um torno oferece a oportunidade de juntar metais de espessuras variadas a alta velocidade e com uma fúria mecânica, o que é catastrófico, especialmente se a coisa pegar suas roupas ou um dos seus membros.

Além disso – e fique à vontade para chamar-me de estúpido – eu não sei instintivamente quais engrenagens no cabeçote fixo farão todas as partes girarem na velocidade certa para cortar, digamos um parafuso M6. Há um diagrama explicando este tipo de coisa, e fico feliz em admitir que eu o consultei. No final das contas, instruções são uma coisa boa.

E tem mais. No começo deste ano, me entregaram uma moto Triumph. Eu já sei como andar numa moto, e consegui entender os vários ajustes disponíveis no display do painel e o computador de bordo após cinco minutos fuçando nela na garagem. Portanto, nunca li o manual.

Mas então, nesta manhã, enquanto fazia uma limpeza, algo me fez ler o manual dela. Eu não fazia a menor idéia de que eu não deveria levar animais comigo na moto, ou beber o fluído do radiador.

Mas o pior de tudo foi quando eu li, com uma sensação de puro terror no meu coração, que tentar ajustar os freios enquanto a moto estiver em movimento poderia levar à perda de controle e a um acidente. Graças a Deus eu acabei descobrindo isso. Eu poderia ser morto.

Sempre leia as instruções.

Fonte: TopGear.com (Fevereiro de 2012)
Tradução: John Flaherty

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Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 25/03/12, em James May, Matérias traduzidas, News e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. “Ela continuava crescendo, e acabei jogando-a na privada e tentei dar descarga nela. Isso fez com que ela crescesse mais.” << Não sei porque mas rilitros disso!

  2. fritar ovo com o oleo do motor , rsrs . a honda 50 cc da pra andar com o oleo de soja usado !!!

  3. “Mas então, nesta manhã, enquanto fazia uma limpeza, algo me fez ler o manual dela. Eu não fazia a menor idéia de que eu não deveria levar animais comigo na moto, ou beber o fluído do radiador.”

    Ri muito com essa! :D

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