De gamer a piloto profissional

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Jann Mardenborough sempre sonhou pilotar carros de corrida. Era uma paixão que começou quando ganhou um carrinho da Matchbox de presente quando bebê, mas ele perseguiu tal sonho com tamanha intensidade silenciosa que mesmo seu pai Steve só descobriu que a maior paixão de Jann era o automobilismo – e não o futebol – há um ano. Jann era reservado. Sua mãe, Lesley-Anne, diz que ele “não era particularmente sociável e mal saía de casa”. Sendo tímido demais para receber visitas, ele passava seu tempo no quarto, onde ele jogava videogames. Mas este adolescente reservado e tímido de Cardiff, Inglaterra, tinha uma grande surpresa reservada para seus pais.

Aos 8 anos, Jann pensou que tinha chances de virar um piloto de corridas. Steve, um ex-jogador de futebol profissional, levou-o à uma pista de kart, e logo o dono do local percebeu que o filho de Steve tinha talento. Mas o maior empecilho foi a falta de dinheiro. A pista local fechou e a alternativa mais próxima ficava em Bristol. “Parei de correr quando tinha 11 anos”, conta Jann, “porque ficou caro demais”.

Ele voltou silenciosamente ao seu quarto, onde ele focou sua atenção à alternativa mais próxima – corridas virtuais no videogame Gran Turismo. Era perfeito para o adolescente obcecado por corridas: uma atividade singular que oferecia um desafio às habilidades de uma pessoa na qual ele poderia mergulhar de cabeça.

“Um dia”, conta Steve, “ele desceu do quarto e disse: ‘pai, eu consegui.’ Eu disse: ‘conseguiu o quê?'”

Em meados de 2011, Mardenborough participou de uma competição online no Gran Turismo 5 que oferecia uma oportunidade para pilotar um carro de verdade. Competindo contra outros 90 mil pilotos virtuais, ele qualificou-se entre os oito melhores na Europa e ganhou a chance de testar a si mesmo contra outros jogadores em um carro de verdade na pista de Brands Hatch. Nada mais natural para um garoto que não gostava de chamar atenção manter isto em segredo por tanto tempo. “Na hora não fazíamos idéia do que ele estava falando”, admite Steve.

7 meses depois, em Janeiro deste ano, Mardenborough, que nunca havia entrado num carro de corrida, estava ao volante de uma bela máquina nas 24 Horas de Dubai – e no começo do que parece ser uma carreira emocionante.

O videogame no qual Mardenborough começou sua jornada, Gran Turismo, foi originalmente concebido pelo japonês Kazunori Yamauchi em 1997. Em uma indústria quase sempre (e injustamente) acusada de infantilismo, Gran Turismo destaca-se pela sua busca em refletir a realidade. É um “simulador” de corridas e seu sucesso (mais de 60 milhões de vendas no mundo) deve tudo à quão próximo ele é da realidade. Seus carros esportivos podem ser virtuais, mas eles foram criados para comportarem-se o mais próximo possível dos modelos verdadeiros.

O nível de realismo que os jogos atuais oferecem permitem que pilotos de Fórmula 1 possam usá-los como treino para corridas. Lewis Hamilton admitiu que jogava jogos de Playstation com seu irmão para estudar as pistas durante seu primeiro ano de F1.

Visualmente, o jogo é impressionante. Com a visão de dentro da cabine, com um painel virtual na parte de baixo da tela, o capô e a pista à frente e o interior claustrofóbico, você não precisa esforçar-se para esquecer que é apenas um jogo. Pise no acelerador e “mergulhe” no jogo – inconscientemente inclinando-se nas curvas e segurando o fôlego enquanto tenta ultrapassar um pelotão de competidores.

Mas mesmo que o jogo consiga imitar a realidade quase perfeitamente, há uma diferença crucial: simuladores não conseguem simular o movimento – a sensação do carro reagindo, a aderência, a aceleração que empurra o corpo, e as forças geradas nas curvas.

Vendo uma oportunidade de marketing, a Sony juntou-se à Nissan para criar a GT Academy em 2008. Era um projeto único criado para responder uma simples pergunta: é possível fazer um jogador pilotar um carro de corrida de verdade? Um espanhol de 23 anos, Lucas Ordoñez, que estava começando uma graduação em negócios, ganhou o desafio online e o verdadeiro. Após treinamento intensivo, ele competiu numa equipe com outros pilotos nas 24 Horas de Dubai de 2009.

Com os objetivos de marketing alcançados, tudo poderia ter terminado ali. Exceto que, apesar de ser apenas um jogador, Ordoñez era bom. “Não sou ficar nervoso, mas estava passando mal de nervoso, pensando que havíamos sentenciado este cara à morte”, disse Darren Cox, da Nissan.

Mas a maneira como o piloto lidou com um problema acalmou seus nervos. “Eu lembro de ter ouvido pelo rádio: ‘pneu traseiro furado, entrando nos pits; por favor troquem o traseiro esquerdo’. Ele estava num Nissan 350Z de 400 cavalos, usava um capacete, ao volante de um carro de verdade, mas manteve a calma. E naquele momento sabia que tínhamos algo nas mãos”, diz Cox.

O programa continou para ver se este método incomum poderia revelar mais talentos. O jogador francês Jordan Tresson garantiu uma vaga na GT Academy em 2012 e Ordoñez foi competir pela equipe profissional Signature Nissan, conseguindo um pódio na competição mais importante do automobilismo, as 24 Horas de Le Mans, em 2011. Dois novos candidatos precisavam ser treinados e a academia reiniciou sua competição online novamente. Foi assim que Jann Mardenborough ficou sabendo.

A transição das corridas virtuais para a realidade nua e crua seria difícil e potencialmente assustadora, mas para Mardenborough foi instintiva: “pareceu totalmente normal”, ele diz. Como manter-se no traçado ideal (entrar e sair corretamente de curvas); coordenação mão/olho e noção de visão, mais a habilidade de prever corretamente onde e como frear; tudo foi aprendido no quarto. “Eu nunca pilotei um carro antes”, diz Mardenborough. “Só havia feito isso num jogo. Eu estava controlando-o apenas com o acelerador e tudo era completamente natural para mim”.

Ele passou no teste em Brands Hatch ano passado e depois, em Silverstone, venceu outros 11 finalistas para ser considerado um piloto da GT Academy. “Minha boca estava doendo porque estava sorrindo de orelha a orelha”, ele diz. “Conheci o Bob (Neville), meu chefe de equipe, logo em seguida. Nesse momento, percebi que eu era um piloto de corridas”. Mardenborough participou de um programa de desenvolvimento de pilotos em Silverstone. Em 6 meses, ele e o vencedor da GT Academy americana, Bryan Heitkotter, conseguiram suas licenças de competição internacionais, um processo que normalmente leva 3 anos.

Os jogadores são novos, maleáveis e livres de ego. Mesmo a falta de experiência em corridas tem um efeito colateral positivo. O mentor de Mardenborough, Rob Jenkinson, um ex-piloto, não acreditava no conceito da GT Academy, mas ele ficou convencido após ver o processo em ação. Ele explica que pilotos que seguem o caminho tradicional têm mais tempo para adquirirem hábitos ruins, que às vezes podem levar anos para corrigir. “Aqui, em 6 meses podemos eliminar os erros”, ele diz. “Tomamos boas decisões por eles imediatamente”.

O que não pode ser eliminado é o perigo. Acidentes agora não podem ser consertados apertando um botão. “Eu sei que o perigo existe, mas nem cheguei a pensar nisso”, diz Mardenborough, apesar de ter capotado seu carro numa corrida na Holanda.

O circuito Dubai MotorCity é parte da Dubailand, que era para ser um vasto parque temático invadindo o deserto, com o primeiro campo de golfe desenhado por Tiger Woods. Hoje, areia voa por lotes vazios e guindastes assomam prédios parcialmente construídos, exatamente como foram deixados em 2008, quando a crise financeira paralisou o projeto. São lembranças dos perigos de esperar muita coisa em muito pouco tempo. Uma lição que os jogadores e a equipe RJN Motorsport não pretendem esquecer.

Mardenborough anda pelo paddock e o pit lane, pronto para as 24 Horas de Dubai. Além da boa pinta, ele também tem a autoconfiança do piloto da McLaren, Lewis Hamilton. Não há sinais do adolescente tímido. O automobilismo requer concentração, e Mardenborough possui isto aos montes antes de entrar em seu carro.

Na primeira parte da corrida, a equipe e os pilotos lidam com problemas mecânicos, e a tensão permeia o seco ar do deserto.

Corridas de endurance são únicas. É um ataque desconcertante aos sentidos. O barulho nunca termina, e os carros espalham-se até que parecem formar uma infinita corrente voando pela pista, a atmosfera tomada pelo cheiro de borracha e óleo. Cada equipe tenta completar “stints” o mais rapidamente possível, que são intercaladas por pit stops rápidos, buscando por pequenas vantagens que, numa corrida de 24 horas, podem fazer a diferença entre vencer e perder. No meio disto tudo, o objetivo maior é, pelo menos, terminar a corrida – ver a bandeira quadriculada no final – e felizmente os temores iniciais de que problemas técnicos pudessem significar o fim de jogo são deixados de lado quando o carro mostra-se rápido e livre de problemas durante a noite e no começo da manhã.

Faltando uma hora e meia para o fim da corrida, resta mais um “stint” e agora, com a equipe em 3º lugar, Neville escolhe Mardenborough para assumir o volante. Após uma longa corrida, um erro nesta hora seria muito doloroso. A pressão é enorme. Mardenborough traz o carro “para casa” facilmente e a equipe está no pódio.

“Quando tinha uns 17 anos, tinha medo de atender o telefone”, ele me conta depois. “Eu progredi muitíssimo”. Sua mãe chama isto de “um conto de fadas”. Provavelmente, quando a GT Academy abrir suas portas novamente na Terça-Feira (1º de Maio) em busca de novos e jovens talentos, possa também ser uma fábula para a idade moderna – onde jogar videogames não é algo tão ruim.

Duas semanas após a corrida, a Nissan confirmou que Mardenborough será seu piloto oficial para a temporada na Blancpain Endurance Series – uma competição profissional com 6 corridas em alguns dos mais famosos circuitos da Europa. Pode ser o começo de algo grande. “Jann tem 20 anos e ele tem um grande futuro”, diz Neville. “Só temos que ficar de olho nele…”

Fonte: Guardian.co.uk
Tradução: John Flaherty

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Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 28/04/12, em Matérias traduzidas, News e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 5 Comentários.

  1. ô sonho, se eu dirijo uma 370Z dessa, que bagaço.

  2. Caramba, isto tudo é um sonho…jogo games d corridas desde a época do ENDURO no Atari, hoje “ganho” muito tempo jogando o Forza 4 e o Gran Turismo 5…adoro jogos de corrida, principalmente os de simulação!
    Parabéns rapaziada pela tradução do texto.

  3. Eu ando jogando Asphalt 6 e quero dirigir um RUF CTR3, provavelmente eu acabaria batendo em algo a 400km/h, mas pelo menos nessa velocidade nem saberia o que me atingiu

  4. Cara vou so comentar uma coisa tudo bem que a iniciativa é otima mas falar que Gran Turismo é simulador foi de doer, um bom jogo mas simulador nunca foi, pelo amor de Deus procura se informar e conhecer mais sobre o assunto que vc esta abordando, existem simuladores bem mais antigos, que simula bem melhor que Gran Turismo, os novos estão a 1000 anos luz na frente, procure sobre Gtr2, rFactor, netkar pro, Richard Burns Rally ai vc vai enterder o que estou falando.

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