Por que gostamos de Jeremy Clarkson?

Não há dúvidas quanto ao sucesso de Jeremy Charles Robert Clarkson, um dos jornalistas especializados em automobilismo mais conhecidos e respeitados do mundo. Seu estilo cômico, irônico e polêmico consegue divertir, irritar e, por várias vezes, nos fazer refletir sobre vários assuntos que nem sempre estão relacionados à carros.

Mas por quê?

Vamos aos fatos: Jeremy Clarkson, também conhecido pelo apelido de “Jezza”, é o clássico exemplo da pessoa “politicamente incorreta”. Não é difícil perceber isto, logo no primeiro contato com ele, seja na mídia eletrônica, seja na mídia escrita. Por várias vezes, ele foi alvo de críticas do público e de governos – sim, eu disse governos, e não apenas o britânico – dando muito trabalho para os porta-vozes da BBC tentarem apaziguar os ânimos dos que se sentiram atacados por Clarkson.

Entre vários “feitos” atribuídos a Clarkson, posso citar alguns:

– Conhecido por gostar de usar calças jeans, Clarkson foi citado como parte da razão pelo declínio nas vendas dessas calças na Grã-Bretanha no meio dos anos 1990. Isso ocorreu pela associação do jeans com homens de meia-idade, o que ficou conhecido como “efeito Jeremy Clarkson”.

– Suas opiniões, segundo alguns, contribuíram para o fechamento da marca inglesa Rover e da fábrica da Vauxhall em Luton, Inglaterra. No caso da Rover, trabalhadores da planta de Longbridge, em protestos contra seu fechamento, inclusive fizeram um protesto contra Clarkson.

– Ainda falando sobre carros, quando Clarkson odeia alguns carros, ele gosta de deixar isto bem claro. Tanto que suas opiniões negativas sobre o Vauxhall Vectra sempre são lembradas para explicar o fracasso de vendas do modelo no mercado britânico.

Se ficasse apenas nisso, já estaria bom. Mas tem mais.

Uma pessoa com opiniões fortes, Clarkson conseguiu irritar não apenas grandes corporações, mas também governos, e não apenas o britânico.

Um caso famoso foi quando Jezza, Richard Hammond e James May viajaram através da Romênia em três supercarros. Clarkson comentou que a Romênia é o “país de Borat, com ciganos e playboys russos”, além de usar um chapéu que os ciganos costumam usar, afirmando que os ciganos achariam que ele era um deles. Isso levou a uma reação negativa da imprensa local, além de um ataque de um grupo de hackers romenos ao site do Top Gear.

Em um episódio, Clarkson, em resposta ao fato de um carro-conceito baseado no Mini produzido pela BMW vir com um kit de chá, sugeriu um carro “quintessencialmente alemão”, com setas que mostrassem saudações nazistas, um GPS que só indicasse rotas para a Polônia, e “uma correia de motor que durasse mil anos”. Não é preciso ser muito esperto para saber que isso não foi muito bem recebido pelo governo alemão.

Jeremy Clarkson também é conhecido por suas visões claramente opostas aos de grupos conservacionistas, como o Greenpeace, dizendo que os “eco-mentalistas” são um sub-produto de “antigos sindicatos e de lésbicas da Campanha para o Desarmamento Nuclear” que encontraram uma causa mais relevante, além de diminuir o impacto causado pela produção de dióxido de carbono pelo Homem.

Com tudo isso posto, é de se presumir que Jeremy Clarkson seria um Jair Bolsonaro britânico.

No entanto, o programa capitaneado por ele, Hammond e May é um dos mais vistos no mundo, com uma audiência que passa dos milhões de espectadores. Seus livros são verdadeiros best-sellers no Reino Unido e em vários países da Europa, além de possuir colunas nos jornais The Sun e Sunday Times. Existem verdadeiras hordas de fãs que querem seu autógrafo, mesmo em países que “sofreram” com suas declarações. Em 2008, uma petição online sugeria que Clarkson deveria se candidatar ao cargo de Primeiro Ministro britânico, o que atraiu quase 50 mil votos. Uma outra petição, sugerindo que ele não fosse candidato, recebeu menos de 90 votos.

Então, por que gostamos de Jeremy Clarkson? Eu nem vou tocar no assunto do Top Gear sendo o melhor emprego do mundo porque isto, aparentemente, é bem claro.

Um motivo óbvio seria o seu senso de humor. Apesar de fazer uso de declarações no mínimo polêmicas, a maneira com que os faz consegue tirar uma risada do espectador/leitor. Mesmo usando de pré-conceitos e de fatos históricos, os comentários de Clarkson quase sempre partem do fato de que eles são baseados na verdade de um fato, ou no que o público enxerga como verdadeiro em um fato, como o nazismo estando profundamente ligado à Alemanha, ou que os carros britânicos sempre quebram. Este é o chamado “senso de humor politicamente incorreto”, ou mesmo “humor negro”.

Mas quem sabe sua popularidade esteja exatamente em sua aversão ao conformismo, ao “politicamente correto”? Talvez ele seja o anti-herói, o tipo de figura que consegue atrair, mesmo quando deveria afugentar. Estamos vivendo numa época onde determinadas piadas ou frases são alvo de críticas, mesmo as que faziam nossos pais, ou nós mesmos, rir até que precisássemos trocar nossas cuecas por outras secas. Tudo em favor do “politicamente correto”, para que nossas crianças crescam e sejam adultos responsáveis. Mas será que ser responsável é o mesmo que ter de pensar três vezes antes de soltar um comentário, qualquer que seja e sobre qualquer tópico? Jeremy Clarkson parece não ser um destes adultos que queiram que seus filhos e os filhos dos outros sigam o que os outros queiram que eles sigam. Não que ele esteja planejando criar filhos “punks” – pelo menos, é o que eu acho.
Clarkson, por várias vezes, afirmou que é contra a “política de proibições” do governo britânico, e que ele é a favor da “liberdade pessoal”. Quem sabe por isso que tantos adoram Jeremy Clarkson? Será que sua falta de preocupação com o que as pessoas pensem de suas opiniões e ações acaba servindo como uma válvula de escape para nós, que nos sentimos observados e julgados por tudo que dissemos e fazemos?

Será que poderia ser pela sua própria figura pública? Um homem de meia-idade com opiniões fortes, com barriga e uma careca em pleno processo de crescimento, por algum motivo, tem também uma “aura” engraçada associada à ele, como aquele avô rabugento que reclama do seu time de futebol e da maneira como seu neto corta o cabelo. Ou do tio que sempre diz a coisa errada na hora errada, mas que é sempre recebido com alegria pelos sobrinhos, sabendo que ele os deixará brincarem na rua e comerem salgadinhos. Talvez eles tenham algo em comum: mesmo que digam os maiores impropérios, quase nunca são levados a sério. Pelo menos, é assim que o próprio Clarkson se define, como alguém cujas opiniões e frases não devem ser levadas tão a sério. Afinal, ele é um apresentador de um programa sobre carros. Será que o impacto de suas afirmações é medida, não por quem as disse, mas quem as ouve? Será que, quem se sinta ofendido com uma piada sobre ciganos e romenos, não irá rir sobre uma piada sobre ecologistas e paranóia?

Ou será que gostamos do Jeremy Clarkson pelas suas opiniões normalmente contrárias à norma atual? Um tema atual seria o meio ambiente. Quantas vezes não ouvimos que devemos fazer de tudo para salvar o meio ambiente da ruína total? Clarkson pensa um tanto diferente. Mesmo admitindo que os efeitos do aquecimento global podem ser desastrosos, ele é veementemente contrário ao “radicalismo” com que o assunto é tratado por algumas partes. Um outro ponto de debate são os carros elétricos. Ele não acredita que os carros híbridos/elétricos, como o Toyota Prius, sejam os grandes salvadores da Humanidade, não porque eles não emitam menos poluentes no ar que os carros comuns, mas pela maneira como eles e seus componentes são construídos. Mesmo sendo contrários ao que é considerado senso comum, seu raciocínio não deixa de ter alguma base sólida. Pelo seu raciocínio radicalmente diferente do alardeado publicamente por várias outras figuras públicas, Clarkson acaba recebendo atenção em determinados assuntos, exatamente para oferecer um certo equilíbrio a um debate, mostrando dois lados de um mesmo assunto.

O fato é que muitos gostam de Jeremy Clarkson. Outros gostam de odiá-lo. Mas não importa se ele esteja falando sobre carros ou sobre o México. É difícil ignorá-lo.

Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 20/07/11, em Jeremy Clarkson, News e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 33 Comentários.

  1. 1ººº comentário… eu adoro ele, muito… o senso de humor ácido… a paixao por carros.. a firmeza ideias… profissionalismo… meu ídolo, grande Clarkson

  2. bruno zen zortéa

    pra mim eu gosto do JC pq bem por tudo nele 🙂 eu adoro ele ele é o meu IDOLO

  3. D4RK BØX

    simples Jeremy é simplesmente ele mesmo… sem medo das consequências que suas opiniões podem trazer, ele tem 1 grande paixão por carros da para notar assim que ele fala sobre os defeitos e qualidades de um carro que ele está dirigindo no momento, e também tem o seu senso de humor, tudo isso reunido numa pessoa só fazendo que assim que varias pessoas gostem dele mesmo falando mal de algo que está relacionado de alguma maneira com elas. Jeremy sabe como cativar o público :).

  4. e essa barriga?esquisito,não?

  5. Evandro Correa

    O que eu mais gosto no JC é, ele tem coragem de expor todos os defeitos de modelos que custam mais de 500.000 reais, enquanto nossa media medíocre se acovarda perante as grandes montadoras e saem divulgando que esses carros populares que nós somos obrigados a comprar são ótimos carros, enquanto na verdade são apenas lixos automotivos feitos de plastico para durar no máximo uns dois sem começar a dar problema.!!!! O consumidor brasileiro deveria ser mais exigente…

  6. Diego barbosa

    sem frescura mas eu amo esse cara, vou resumir o cara é foda!

  7. O jezza é mesmo um cara muito maneiro, eu o vejo como aquele tio que deixa vc fazer tudo, principalmente aquilo que sua mãe implicaria, como soltar fogos, pular fogueira, etc…

  8. Gostaria aqui também de agradecer e fazer um elogio ao nosso amigo johnflaherty, que eu acompanho desde o youtube há mais de um ano, pelo ótimo post, pelo texto, conteudo e tudo mais, muito bom. Vc é jornalista ou algo do tipo john? Um abraço a vc e toda equipe Top Gear br por esse excelente trabalho, nos proporcionando gratuitamente a chance de poder acompanhar esse programa e esses três ingleses gente fina. vlw

    • De jeito nenhum, não sou jornalista nem pretendo ser tão pretensioso a dizer que sou um.

      Mas gosto de fazer algo, no mínimo, decente, como todos aqui do blog. ^^

  9. Gosto do JC por todos os motivos aqui relatados, e pela sua profissão. Ou forma de usar sua profissão. Um emprego desses, meu deus até dou risada quando eles estão viajando a bordo de um baita carro e dizem que estão trabalhando… Se eu tivesse um emprego desses, ficaria ansioso para chegar o próximo dia e ter que trabalhar de novo!! Sem contar o salário né?
    Ele é único, é do tipo AME OU ODEIE, é assim e pronto.
    Abraço a toda equipe desse magnífico blog, que a cada dia me faz admirar ainda mais.

  10. A verdade é que vivemos no mundo do politicamente correto, e ele é oque falta no mundo, pessoas com coragem de dizer oque pensam e não de pessoas que dizem oque os outros (na verdade a novela das oito) pensaram por ele.
    Parabéns pelo ótimo post, proficional.

  11. é isso ae, ele fala o q dá na telha… ótimo o humor ácido dele

  12. Eles é um completo idiota, mas é engraçado, por isso eu gosto dele. O TopGear seria um programa comum se não fosse por ele.

    As frase deles são fantásticas!

  13. Sou simplesmente um grande fã desse cara.

    Agora eu gostaria que ele viesse a Brasil e fizesse algumas piadas acidas só para ver, o pessoal xingando no twitter.

  14. Lindson H.

    O Jeremy é um punk de meia idade.. Ele devia escutar The Clash e Sex Pistols e ganhou dinheiro de uma forma maravilhosa, pilotando carros incriveis. Mas nunca deixou de questionar e ter um cabelo ridiculo… Ele é muito bom… rs

  15. Luiz Henrique

    ele é foda!!!!
    eu choro de ri quando ele fala For God’s Sake!
    com aquela voz grossa de fumante haha!!!
    é o melhor de todos!!!
    sou muito fã de Top Gear, inclusive dele!!!
    =)

    • Paulo Freire

      “For God’s sake” dele e do May são impagáveis. É o tipo de jargão que o Top Gear USA precisa, no UK as expressões são tipicamente britânicas e há humor nisso, o mesmo ñ se pode dizer da forma que falam nos States.

  16. POOOOOOOOWERRRRRRRRRRRR!

  17. Paulo Freire

    Sinceramente eu acho que os 3 se completam. O Jeremy ñ era lá tão engraçado no começo do Top gear, ele foi se soltando mais com a chegada e a firmesa do May e do Hammond.

  18. o jeremy é o meu idolo e aposto q é tb o idolo d todos os fãs do top gear

  19. Outra q é engraçada é qdo ele fica gritando “POOWWEEERRRR”, e depois qod May reclama com ele por ele sempre querer poweeeeerrrr

  20. O mundo seria melhor se houvessem mais pessoas com Clarkson, um exemplo são as guerras que acontecem por motivos banais e excesso de seriedade, as frases deles são de mal gosto sim, mas onde esta o mal gosto?
    Exatamente naqueles assuntos que todos gostariam mas têm medo de falar o Jezza não se importa com isso por isso é taxado como incorreto. É justamente a mesma coisa quando fazemos comentários maldosos sobre o Brasil todo mundo cai em cima, no fundo todos temos um humor politicamente incorreto, viva Jeremy Charles Robert Clarkson, e que todos tenham a sua coragem em alguns momentos.

  21. Welington

    Ele é autentico.
    Isso é dificil hj em dia , quando o cooportativismo e o puxa-saquismo, eleva muitos invejosos e incompetentes.

  22. Rafael Costa

    Bom ver novos trabalhos do John!! Acompanho desde o youtube também.
    Como amante de carros e do Top Gear, também sou fã do Jeremy e dou risada com todas as piadas dele, mesmo com as do Brasil! Hehe
    Aposto que muita gente que critica o Jeremy, ri das piadas dele e até pensa parecido com ele! Mas é difícil expor a sua opnião verdadeira no mundo e mais diifícil ainda é ir contra a maioria.
    Rammster e Cap. Slow não deixam a desejar também! O trio é perfeito!

    • O legal é que os três tem personalidades diferentes, e gostam muito de carros, mas com abordagens diferentes. Exemplo é o fascínio do JC pelos supercarros, o gosto do RH pelos muscle-cars, e o JM que só se preocupa com o conforto e a estabilidade …

  23. @RICHARDOFICIALL

    POOOOWWEEEEERRRRRRR!
    AUSHAHUSAUHHSA

  24. JC é autêntico, por isso sou fã dele. Odeio eufemismos, a não ser na forma de sarcasmo. Ele exagera um pouco em algumas situações, mas ele muito mais acerta do que erra …

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