Jeremy Clarkson fala sobre hobbies

Por anos, eu argumentei que a maioria dos motoristas na Grã-Bretanha são muito bons. Os números suportam esta teoria, pois temos um dos menores índices de mortos e feridos do mundo. Mas, bem recentemente, não tem sido assim.

Obviamente, não somos tão ruins quanto os gregos que, apesar de 100 anos de prática, nunca têm certeza sobre qual lado da estrada eles devem usar; ou os italianos, que possuem exatamente o mesmo código de trânsito que nós. Exceto pelas distâncias de frenagem, que estão em centímetros.

Aí, têm os portugueses, que consideram o ato de dirigir tão perigoso quanto injetar estricnina diretamente no seu fígado. Se você for comprar pão com seu carro, as chances de você voltar para casa morto são de 100%.

No entanto, eu ainda insisto que os americanos são os piores motoristas do mundo, em grande parte devido à sua agressividade. Você pode estar na faixa central de uma rodovia movimentada que ninguém o deixará mudar para a faixa da direita, mesmo que seja bem óbvio sua vontade de pegar a próxima saída. Você usa a seta, você implora, você suplica e então, quando a saída está bem próxima, você é forçado a agir. E isto sempre provoca uma enxurrada de gestos obscenos, buzinas e – na maioria das vezes – tiros de metralhadoras.

Esse tipo de coisa está acontecendo na Grã-Bretanha agora. E para piorar as coisas, ninguém parece ter sequer uma compreensão rudimentar do que significa “etiqueta no trânsito”. Se alguém estiver a 112 km/h, essa pessoa acha que tem o direito de ficar no que é chamada de “faixa rápida” por toda a viagem. Você pode piscar as luzes e buzinar e fazer careta, mas não adianta. Simplesmente não sabe que está fazendo algo errado.

Longe da estrada, ultrapassar alguém agora é visto como um crime comparável ao genocídio e ao estupro. Se você quiser passear por aí a 64 km/h, eu não vejo problema nisso. Então, por que você deveria ficar irritado se eu quisesse passá-lo? Isso não machuca ninguém, então por que piscar suas luzes e gesticular contra mim?

Os problemas estão por toda parte. Mini-rotatórias duplas nos centros das cidades deixam as pessoas em estado catatônico, o que significa que elas não podem se mover por várias horas. As pessoas puxam seus freios-de-mão enquanto esperam no semáforo, o que significa que quando elas acelerarem, elas perderam o nanosegundo quando apareceu a luz verde. Nos postos de gasolina, existe uma lacuna de exatamente uma hora entre alguém entrar no seu carro e sair de lá. Nos estacionamentos, as pessoas ficam confusas até mesmo com a vaga mais espaçosa. Mas não era desse jeito. Então, o que deu de errado?

O Daily Mail culparia os imigrantes, é claro, dizendo que quem aprende a dirigir com um boi não teria chance de se adaptar a um Camry de £200. Mas não existem imigrantes onde eu vivo, e o problema é tão grave quanto. Então, não adianta culpar a imigração.

Os idosos? Bom, sim. Minha mãe vive me contando histórias sobre vários de seus amigos que passam a maior parte de suas vidas trombando contra tudo. Mas novamente estamos falando sobre uma minoria.

Para tentar chegar à raiz do problema, eu examinei como o problema muda de um dia para outro, e bolei uma teoria. Nas tardes de Terça-Feira, tudo está bem, enquanto numa tarde de Sábado, está tudo mal. E numa Segunda-Feira de feriado bancário, é um pesadelo. E, claro, é quando as pessoas usufruem de seus hobbies.

Então, eles decidiram ir pescar. Melhor ter isso em mente da próxima vez que estiver passeando pela margem de um rio. Todos com uma vara na mão já foram pêgos por suas mães com um tipo diferente de “vara” nas suas mãos…

Enfim, no passado, os hobbies eram coisas simples que exigiam pouquíssimos equipamentos e podiam ser aproveitados num galpão nos fundos do seu jardim. E nada de mal nisso. Esculpir gravetos não incomoda ninguém. É a mesma coisa com cultivar salsa e outras ervas.

Mas agora, hobbies envolvem faixas e cordas e capacetes. As pessoas praticam montanhismo, esferismo, parasailing, rappel, caminhar, surfar, mergulhar de penhascos, andar de mountain bike, canoagem, voar, andar a cavalo e todas estas coisas que requerem uma tonelada de coisas.

Isso significa trailers e bagageiros de teto, e isso significa dirigir mais devagar e com mais cuidado do que de costume. Quando você está indo trabalhar numa Terça-Feira, você dirige de maneira bem diferente, comparando quando está rebocando seu cavalo para uma competição num feriado bancário.

Da mesma forma quando você vai comprar leite, você é um motorista britânico comum e conservador. Habilidoso, paciente e ágil. Mas quando está indo até Sulton Bank rebocando uma asa-delta, você está praticamente dirigindo um rodotrem australiano. Isto o torna um tanto cauteloso e precavido. E pessoas cautelosas e precavidas são indecisas.

Como hoje de manhã, eu fui até um mercado local e na viagem de 8 quilômetros, fiquei preso atrás de um reboque para cavalos por 5 quilômetros e então, quando eu o ultrapassei, fiquei preso no que parecia ser uma corrida de longa-duração de bicicletas. A malha viária, então, não é mais um sistema de vias usada para manter a nação em movimento. É um brinquedo, para quem costumava ver revistas da Penthouse.

Tem mais também. Não dá para voar de asa-delta no seu jardim, ou praticar esferismo ou surfar. Todas estas coisas requerem um terreno apropriado, e este terreno apropriado normalmente está a centenas de quilômetros de onde você vive. Então, as pessoas cautelosas e precavidas estão por toda parte, saindo dos subúrbios para um penhasco, ou algum mar, com um carro cheio de equipamentos caros que irão quebrar se caírem do banco traseiro.

É como dirigir com um ensopado no porta-malas. Nunca dá para andar rápido, e você fica muito bravo quando alguém faz você frear, ou manobrar.

Precisamos fazer algo a respeito, e acho que tenho uma idéia. Hobbies devem ser taxados dependendo do tamanho do equipamento necessário para o tal hobby. Então, quem cultiva agrião em laguinhos nos seus jardins pagarão centavos. O mesmo vale para fãs de quebra-cabeças e jogadores de cartas. A taxa básica também seria cobrada da pesca, a não ser que compre um barco de 68 pés com uma “fighting chair” atrás. Neste caso, você está ferrado. Andar a cavalo, naturalmente, seria proibitivo. E James May também deve saber que sair de Londres para mexer no seu avião custará cerca de £100 mil (R$265 mil) por semana. Se ele decidir voar sobre minha casa, fazendo uma barulheira num belo dia de verão, a penalidade será pior. Eu irei abatê-lo a tiros.

Pense nisso, se quiser, como “taxar os c…”. Acho que será bem popular.

Fonte: Top Gear
Tradução: John Flaherty

Toda Segunda-Feira, traremos artigos escritos por Jeremy Clarkson, falando sobre vários tópicos, quase todos sobre carros. Fiquem ligados.

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Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 29/08/11, em Matérias traduzidas e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 11 Comentários.

  1. Shadow Neo

    Muito legal esse artigo. ^^
    Valeu pela tradução.

  2. Valew John Flaherty, o blog ta bem bacana, parabens a todos do blog.

  3. Parabéns pelo blog… excelente… sempre uma matéria nova… Obrigado John…

  4. Tiago Luis

    hahaha abatelo a tiros, Jezza escreve muito bem, não me cando do humor britanico

  5. é que o Jezza não conhece o transito da minha cidade, Rio Claro, Interior de SP. Outro dia um retardado quis me ultrapassar numa avenida de duas mãos, ficou dando farol para poder passar, quando ultrapassou, o cara freou bruscamente na minha frente para fazer uma conversão, não ligou a seta e fez até o motor do carro morrer. Não conseguia mais ligar o carro, e só fez piorar o trânsito.

  6. concordo com o Clarkson em algumas coisas, mas cobrar impostos ate para sair de casa ai será tenso!!

  7. Muito bom o texto, interessante pra ver que em um pais sério, as pessoas tem mais facilidade de fazer o que gostam, la no UK, pelo que reza o Clarckson, é facil fazer esse tipo de coisa (exemplo, rebocar um asa delta até a pista de voo), ja aqui no brasil, não temos esse tipo de problema, ja que o preço das coisas é tão proibitivo, que voce teria que ser rico ou profissional para possui um carro que consiga rebocar algo, um reboque, uma asadelta e as outras parafernálias, gostei do texto por mostra como as coisas aqui no brasil são proibitivas…

  8. Paulo Freire

    “Eu irei abatê-lo a tiros” << kkkkkkkkkkk Queria poder fazer isso com nosso governador que adora passear de helicoptero nas tardes de Domingo.

  9. Jezza e suas peripécias….kkkkkkkkkkk

  10. Excelente artigo! O espírito crítico exercido de forma sensata, algo ausente na imprensa brasileira, é sempre bem vindo e bem lido!
    Obrigado John!

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