A lógica efervescente do James

Tenho certeza que muitos de vocês admitiriam sentir um friozinho na espinha quando, digamos, saltam de um trampolim. Nada de incomum nisso, e certamente não é algo embaraçoso. É algo relacionado com a descarga de algo como endorfina, e é perfeitamente natural.

E tenho certeza que todos vocês já sentiram um nó na garganta durante alguma cerimônia comovente ou quando ouvem a multidão cantar “Abide With Me” antes da final da FA Cup; ou talvez um arrepiozinho naqueles pelinhos na nuca quando observa um fabuloso nascer do Sol. Conheço uma mulher que afirma que suas gengivas doem se ela assiste um filme sentimental, e pessoalmente sou tomado por uma sensação de enjôo leve se Richard Hammond aparece na minha televisão.

Tudo isso é a maneira da natureza dizer a você que algo é bom para você, ou ruim para você, ou que você deveria simplesmente desligá-lo. Milhões de anos de evolução nos deram um útil guia visceral para o mundo, e ele pode ser explorado de maneira recreacional, como colocar seu dedo no seu ouvido. A natureza nos diz que isto é seguro, porque seu dedo não consegue ir muito fundo para causar algum dano. E também é bastante agradável.

Isto me traz para minha “base efervescente do pênis”, como os outros dois o apelidaram. Isto é um tanto enganador, porque eu deixei bem claro, antes do “Comichão” e do “Coçadinha” reduzir toda a discussão para uma série de estúpidas piadas sobre pênis, que a sensação que senti em certos carros era atrás do meu pênis, e não era algo sexual.

É bem difícil de explicar, ou mesmo de localizar de maneira precisa. Em alguns casos, como o meu Boxster, pode ser atribuído ao puro feedback mecânico. Tem uma parte na faixa de rotação, a cerca de 4.500 rpm, onde um zunido atravessa o banco, e dali para o cóccix, e isso é puramente agradável. Mas também sinto isso na Ferrar F430 mesmo quando está parada, e o Twingo 133 me faz sentir isso só de pensar nele. Quando a Maserati Quattroporte foi lançada, senti a efervescência ao ver as fotos, e sabia que eu iria gostar dela, independentemente de como ela andasse.

Médicos talvez possam explicar isto, mas não estou interessado. Eu simplesmente gosto disso. Não acredito que seja uma resposta puramente emocional, eu acredito que tem uma glândula ou um nódulo em algum lugar que responda a estes estímulos, e que a coisa toda seja amplamente fisiológica. Estou surpreso que “Dr. Clarkson” não tenha bolado um diagnóstico mais convincente, já que ele é um doutor.

Partindo disto, não posso estar sozinho. Não posso ser a única pessoa na Terra com este maravilhoso presente, tão gratuito e precioso quanto o aroma de maçãs ou o gosto do ar do mar nos seus lábios. Simplesmente acho que as pessoas não gostam de admitir, porque parece um tanto estranho ou anômalo de alguma maneira, como ter um ferrorama.

Uma ou duas garotas com as quais eu conversei admitiram sentir algo parecido, e sugeriram que pode ser uma espécie de ponto-G espiritual, mas não acho que seja. Obviamente nunca tive um ponto-G, então não posso ter certeza, mas eu novamente enfatizo que a efervescência não é nem um pouco sexual. É uma área de prazer ativada apenas por determinados bens manufaturados, especialmente os que têm motores, e por artefatos tão diversos quanto um belo relógio de pulso ou uma espingarda.

Pelo menos a existência da glândula efervescente explica exatamente porque, ao menos para alguns, muitos carros são admiráveis, mas um ou dois nos possuem de uma maneira inexplicável. Poderia explicar meu entusiasmo pela F430 mostrando seu formato, a frente ou seu escapamento, seu cheiro, suas gratificantes e precisas trocas de marchas, o peso no seu volante, e por aí vai. Estas são as razões porque também admiro o Audi R8, mas eis a diferença. Eu simplesmente admiro o R8, enquanto a F430 ativa a efervescência. Como é possível? É a glândula.

A boa notícia é que não preciso necessariamente de um supercarro para ativar o botão mágico. Como eu disse, o Twingo 133 tem o mesmo efeito sobre mim, assim como meu velho 911 e aquele Cadillac surrado que comprei para nosso episódio especial na América. Outros obviamente sentem isso com Subarus e com o Focus RS. Acho que minha companheira sente isso com o Fiat Panda, mas ela sente vergonha demais para admitir.

Suspeito que alguns de vocês também sentem isso. Dirija o seu carro agora, relaxe, aproveite, e então pergunte a si mesmo: sente a efervescência? Espero que sinta.

E se não sentir, azar o seu. E bota azar nisso.

Fonte: Top Gear (Fevereiro de 2010)
Tradução: John Flaherty

Toda Terça-Feira, traremos artigos escritos por James May, falando sobre vários tópicos, quase todos sobre carros. Fiquem ligados.

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Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 30/08/11, em Matérias traduzidas e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 23 Comentários.

  1. Eu sinto um arrepio e “tesão” sempre que escuto o som da Ferrari 458 Itália ou um V8 de um muscle car ou quando vejo uma BMW mais potente como a M3. Mas com relação a carros pequenos, sinto prazer em dirigir um carro como o Picanto… tá o motor não é nenhuma demostração de performance, mas o carro em si é bem agradável e bom de dirigir, claro, isso quando você está em uma pista razoavelmente boa.

    • Há!!! esqueci, o som do Maserati Quattroporte é….. simplesmente fantástico, talvez um dos melhores sons que já saíram alguma vez de um escapamento. Inclusive ele foi testado pela equipe Top Gear: http://youtu.be/RmeeF9ZtkCA – Para quem assistir a este vídeo, assistam principalmente dos 0:44 aos 1:00.

      • O carro que me deixa com mais ‘tesão sonoro’ é o Jaguar XKR, principalmente o desse vídeo http://www.youtube.com/watch?v=E396uHl_UcA . Outros são os 6-em-linha da BMW e qualquer V8 de giro alto, principalmente os Ferrari.

        Pra mim acontece algo como um arrepio, na região da nuca, e até agora o carro q mais me deu isso, mesmo não o podendo ligar nem rodar com ele, foi o Honda CR-Z. Eu entrei nele e fiquei absolutamente encantado. Câmbio curtinho, painel lindo, posição baixa, cupê pequeno duas portas. É uma futura compra, disso não tenho dúvidas.

      • Cara falando em ronco tem um crossover da infiniti o fx 35 que tem um ronco muito foda e singular é um dos meus roncos favoritos!! Também concordo que o som do Quattroporte é fantástico!!

    • eu amei o som da nova M1 da BMW, e eu, não é sempre, mas as vezes arrepio com o ronco do meu fusca, sim fusca, e daí?! haha, mas eu arrepio e sinto um certo tesão mesmo é quando dirijo a F-1000 modificada que meu pai possuí, quero comprar dele a caminhonete, mas ele não quer.

  2. quando é que pôe o novo episódio do top gear usa? (sem legenda)

  3. Thiago Cordeiro

    n tem muito a ver, mas agora no Natgeo ta passando conexões da engenharia com a apresentação de Hamond

  4. Bruno Oliveira

    Gostei do texto, descreve bem o ‘tesão’ que temos por carros. Quando se é autoentusiasta, não importa se o carro é caro ou velho ou barato, se o carro for prazeroso de andar, ele será bom. Sinto isso quando dirijo o Ford Ka, por exemplo, mas tenho certeza que sentiria a mesma coisa guiando uma Quattroporte, aquele ronco dela já arrepia por si só.

  5. Bruno Oliveira

    Esperando ansiosamente a legenda do Top Gear USA da semana. Pena que o John tem que faze-la sozinho, deviam ter mais pessoas ajudando nisso. Eu infelizmente não posso porque trabalho e ainda não sou fluente no ingles.

  6. Rafael Costa

    Sinto isso também em alguns carros…
    Alias, fazia tempo que não sentia isso! Meu subaru ficou pronto na quinta, após 3 longos meses na oficina.

  7. Thiago Fernandes

    Quem conhece os motores do Uno 1.6R e da Palio weekend sport 1.6 16v sabe bem o arrepio que dá quando se passa dos 4mil rpm… o som do motor faz vibrar a espinha, não sei explicar kkkk
    to tentando ser realista kkk como não conheço outros carros mais esportivos, fica a dica desses dois que não são tão dificeis de achar por aqui.
    E a sensação de nojo que o James falou, eu tive quando entrei num Agile (nada contra quem gosta, mas é opinião pessoal), me embrulhou o estômago só entrar naquilo, assim como andar na Ecosport do meu tio, estava tudo muito bem na reta, incrivelmente confortável, aí ele dobra uma esquina a 50km/h e o pneu de dentro da curva patinou e a carroceria inclinou pro outro lado, só Deus sabe o que rezei na hora kkkkkkkkkk

  8. Eu entendo perfeitamente o que James quer dizer. Já tive a oprtnidade de dirigir vários carros (ferrari, porsche, mercedes, bmw, camaro, corvette, etc) mas apenas alguns deles me deram essa sensação. A sensação que tive ao acelerar um Camaro não foi tão intensa quanto a que eu sinto ao andar com meu Fiat Tipo 1.6, talvez por ser automático, não sei, é estranho ler isso, eu sei, e eu achei estranho também, achei também mais excitante dirigir um Toyota Supra 93 do que uma C63 AMG. Acho que isso tem mais a ver com as sensações que o carro te passa do que com o desempenho em si, o revestimento do volante, a forma do painel, a agrssividade das formas da carroceria, sua posição de dirigir, etc.

  9. Eu sinto esse tesão quando eu dirijo o VW Gol 1.6 aqui de casa, quando vc pisa até o fundo do acelerador e aquele carro que quase não faz barulho transforma-se numa máquina capaz de produzir sons incríveis, ele se torna encorpado e vai afinando até os 6 mil rpms.
    Outros carros que me fazem sentir essa mesma sensação são o 911 GT3 RS, Ford GT, Ferrari 308 GTS, o Impreza e hondas com motores de alto giro.

  10. Apenas o som da BMW 134 Judd do Georg Plasa (que Deus o tenha), já suficiente para deixar-me zonzo!

  11. Ninguém nunca ouviu de dentro da cabine o ronco de um rocam 1.6 com álcool no tanque em um dia frio e com o motor entre 2500 e 4000 rpm? O motor faz um som grave, nem um pouco metálico, digno de V8 americano. Algum tipo de anomalia no escapamento, não sei, mas é lindo e te faz sentir num carro muito maior e mais caro. Ele só faz isso com álcool no tanque e só quando está frio, recém ligado. O mais gostoso é estar em 3a marcha, a 60 por hora e pisar fundo. É quando se escuta com mais clareza e intensidade. É algo que mexe com a virilidade do cara. Te faz sentir com “2kg de saco no meio das perna”.

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