Hammond e a lombada.

O que se segue não é um argumento bem equilibrado, nem um exemplo de jornalismo objetivo especialmente bem pesquisado. Não contém estatísticas ou entrevistas com as pessoas que logo irei acusar de vandalismo injustificável. Alguns poderão dizer que, ao escrever isto aqui, estarei abusando de um dos muitos privilégios que consegui ao longo do meu trabalho. E eles podem estar certos. Mas não ligo a mínima porque estou irritado. Extremamente irritado.

Estou sentado aqui, inspecionando os restos estilhaçados dos meus sonhos de criança, e eu poderia chorar pela criancinha dentro de mim que está, enquanto eu escrevo, de pé com os braços moles e uma expressão confusa e magoada adornando seu rosto. Deixe-me começar por aqui, pela minha infância. Quando eu era esse menino de 10 anos de idade – aquele com os braços moles e de expressão estarrecida – fui levado pelos meus pais nas nossas primeiras férias fora do país.

Fomos para a França, e lá, junto com as muitas coisas interessantes que eu vi – incluindo um bolo feito de creme de ovos e uma belíssima garota de 12 anos na barraca ao lado – eu encontrei uma Lamborghini Countach preta. Não conseguia descrever seu formato, mas uma olhada naquela coleção de painéis brilhantes e os detalhes cintilantes e eu sabia que a amava ainda mais profundamente do que a menina de 12 anos na barraca ao lado. Eu jurei para mim mesmo que, um dia, eu teria aquela criatura para mim. O carro, não a menina. Na verdade, ela era bem fria.

Seis anos depois, e o carro ainda estava bem no fundo da minha mente. Mas de repente ele voltou com tudo num Sábado enquanto eu trabalhava na livraria local. Foi o som. Ergui minha cabeça com tudo quando ouvi o ruído mecânico e bravo de um motor grande, latindo pela avenida principal. E então eu vi, passando pela janela, uma Countach preta exatamente igual à que eu tinha visto na França. Minha mente voltou a trabalhar, mas minha alma e meu coração voaram pela janela e correram atrás daquele touro preto e bravio.

Esta visão não apareceu mais na minha vida. Embora a idéia de ser assombrado por uma fantasmagórica Lambo preta seja charmosa, minha vida acabou ficando desprovida de raras coisas italianas exóticas e, ao invés, foi preenchida desordenadamente com motos japonesas baratas e tentativas frustradas de tornar-me uma estrela do rádio. Avançando mais um pedaço grande de tempo, e desisti dessa história de Lambo numa simples conversa com meu pai, onde eu expliquei que finalmente aceitei que nunca teria uma Lamborghini. E mesmo tendo 21 anos, me considerei bem maduro por ter feito essa afirmação e ter deixado minha fixação infantil de lado.

E o motivo para esta breve autobiografia? É importante para mim que você aprecie o significado da Lambo preta na frente da minha casa agora. É uma Gallardo Spyder. Não é zero-quilômetro, mas uma Lambo preta é uma Lambo preta, e esta é minha. Sob alguns ângulos, poderia ser a mesma coleção de painéis cintilantes e cortes fortes que formavam a Countach preta que eu vi pela primeira vez na França há 30 anos. Ela tem dois anos de uso, e eu a tenho faz uma semana. E algum burocrata anônimo na prefeitura já a arruinaram.

Eu fui com ela para a BBC hoje – para mostrá-la aos meus amigos – e as últimas centenas de metros até o escritório estão infestadas com lombadas. Uma delas agora está decorada com uma parte do difusor de plástico logo abaixo do belo queixo pontudo da minha Lambo.

Não é a primeira vez que um pouco de asfalto acabou com minha carteira, dignidade e felicidade. Eu tinha uma Ferrari 308 GT4, e uma lombada arrancou um pedaço do seu cárter. Tive que trocar o amortecedor traseiro de uma BMW R1150 GS, feita para correr no Paris-Dakar, depois que um mecânico me disse que ela também tinha sido arruinada pelas lombadas. Mas estes horrores são pouca coisa comparados com o pesadelo que é ouvir o fundo da minha pequena Lambo raspando numa lombada.

Levei uma hora para ganhar coragem e checar os danos. Para ser justo, é apenas um arranhado. E para ser ainda mais justo, o vendedor me disse que um difusor novo custa umas poucas centenas de libras, ao invés das dezenas de milhões de libras que eu havia imaginado primeiramente. Mas é o princípio da coisa que fez meu sangue virar ácido verde.

A lombada em questão fica num trecho de estrada curta demais que até uma Lambo não consegue passar dos 50 km/h. Ela causará emissões maiores de gases poluidores ao fazer os motoristas desacelerarem e pararem para admirar a paisagem do seu alto pico antes de acelerarem de novo. Ainda assim, ela entrou na minha vida e amassou meu sonho, e por isso eu nunca, jamais irei andar por aquele trecho de novo sem ranger meus dentes até virarem pó.

Isso é tudo. Agradeço por me permitirem desabafar.

Fonte: Top Gear (Maio 2011)
Tradução: John Flaherty

Toda Quarta-Feira, traremos artigos escritos por Richard “Hamster” Hammond, falando sobre vários tópicos, quase todos sobre carros. Fiquem ligados.

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Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 31/08/11, em Hammond, Matérias traduzidas e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 18 Comentários.

  1. Tiago Luis

    dizem que a educação de um povo no trânsito mede-se pela quantidade de lombadas existentes em suas ruas.

    tomando essa máxima sugiro que ao sair de casa na cidade de Canoinhas – SC ou se desavisadamente forem passar por aqui tragam suas clavas porque só podemos ser alguma espécie de povo bárbaro!
    nunca vi em lugar algum estradas onde as lombadas se proliferam como aqui.
    parece que elas são providas de um sistema de mitose só assim para explicar essa miraculosa multiplicação das lombadas!

    caramba tive agora um insight: Nosso prefeito deve ser uma especie de jesus das estradas no que se refere ao milagre da multiplicação das lombadas!

    um ótimo dia a todos e obrigado a equipe TopGear BR

    • a cidade de Ipeúna – Sp é a cidade que eu dou aula, cidade vizinha a que eu moro, e o prefeito possui a capacidade da multiplicação de lombadas também, mas as lombadas que ele constrói não são lombadas normais, são lombadas que ocupam toda a via e não passam de 50 cm de largura com algumas polegadas de altura. Algumas mesmo. Esses quebra-molas estão estão espalhando como praga na cidade toda, se bem que não precisa de muito para ter em todas as ruas da cidade

  2. Ahahahaha, muito bom o post e eu entendo a raiva do Hammond…

    Um bom pra vocês também!

  3. Uma coisa que não tinha pensado, o quanto lombadas, radares e obstáculos sem necessidade contribuem para o aumento no consumo de combustível.

    Obrigado por mais este texto!

  4. Aqui em Pelotas/RS é complicado também. Quando saio com meus amigos sempre procuramos caminhos que não tenham essas lombadas, mas é quase impossivel encontrar.

    Uma das mais bizarras é uma lombada antes de uma rotatória a qual se é OBRIGADO a parar para ver se não vem ninguém. Aí eu pergunto, PRA QUE ESSA LOMBADA!?

    Outra coisa que me assusta é o fato que até mesmo um Ford Escort 1998 raspa ao passar pela maioria das lombadas aqui na cidade, imagina uma Lamborghini. Deve ficar metade do carro para trás depois que se passa por ela.

    Baita trabalho o de vocês to Top Gear BR, parabéns. Esses posts dos blogs dos apresentadores serão bastante úteis enquanto a nova temporada não começa.

    Aliás, tem alguma data para a volta deles?

  5. Desse daí eu goste muito, o Richard usou muito a criatividade para escrever e, fala sério esse trem de lombadas é uma porcaria.

  6. Perto de casa recapearam uma rua, uma das lombadas ficou muito alta e toda vez que passo de carro com meus pais (não tenho cnh), me corta o coração vendo o pobre golzinho raspando… Imagino a reação do Richard raspando uma Gallardo numa dessas aberrações das ruas.

  7. caramba no começo eu achava q o john tava falando :S

  8. Shadow Neo

    Que tristeza.
    Deve dar um mal estar, uma raiva indescritível…

    Pelo menos o concerto não saiu muito caro.

  9. Sei exatamente como é isso, tenho carro rebaixado, rs

  10. Rolland T Flackphayser

    A menos que eu muito me engane, lombadas são proibidas por lei no Brasil

    Art. 94. Qualquer obstáculo à livre circulação e à segurança de veículos e pedestres, tanto na via quanto na calçada, caso não possa ser retirado, deve ser devida e imediatamente sinalizado.

    Parágrafo único. É proibida a utilização das ondulações transversais e de sonorizadores como redutores de velocidade, salvo em casos especiais definidos pelo órgão ou entidade competente, nos padrões e critérios estabelecidos pelo CONTRAN.

  11. lukinhas.killer

    odeio lombadas, mais se for aquelas longas e baixas não tem problema…o problema são aquelas muito altas feita pela prefeitura ou aquelas que os propios moradores fazer….. ja detonou tudo embaixo do 205, do vectra, inclusive no vectra ja quebrou os escape umas 2 vezes por causa de lombadas! deviam concientizar e não punir!

    []s

  12. Aqui no Rio de Janeiro lombadas são “carinhosamente” chamadas de “quebra-molas”. Todo bairro tem aos montes, a grande maioria parecem postes deitados na rua, coisa tosca feita por moradores mesmo. São altos demais, curtos demais e a inclinação é bem arredondada… é sério, imagem um poste deitado na rua… pancada na subida, pancada na descida e fundo do carro raspando…

    Costumam ser de concreto e ter vergalhões no meio… quando começam a rachar e esfarelar com o tempo, os vergalhões ficam expostos e acabam causando danos aos pneus.

    Normalmente esses “quebra-molas” não tem sinalização alguma, nem placa nem pintura… de noite com chuva, é certeza de você acertar algum no caminho.

    Fora as ruas com calçamento de paralelepípedo em que o povo arranca umas 3 carreiras de pedras, enche de concreto por baixo e cola as petras por cima, mais altas que resto da rua… vira um “quebra-mola” quadradão… o famoso “empena roda”.

    Quando eu vejo uma lombada “legalizada” (daquelas de asfalto, sinalizadas, com as medidas estabelicidas pelo CONTRAN) eu fico até feliz.

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