Clarkson e o consumismo

Minha Range Rover virou uma hipocondríaca. Enquanto a dirigia pela rodovia neste mês, o painel de repente mostrou uma mensagem dizendo que tinha uma falha na suspensão e que eu deveria diminuir a velocidade imediatamente para 48 km/h. Mas como não estava quicando por aí feito uma bola, ou deslizando de barriga, jogando faíscas no tráfego logo atrás, eu segui em frente.

Isto deixou o carro bem chateado. “Estou doente”, ele disse. “tenho que ir para um hospital imediatamente, ou irei morrer”. Tentei explicar que era um caso de gripe elétrica de homem, mas não adiantou. “Ai”, ele disse. “Minhas pernas estão doendo. Por favor, diminua”.

Normalmente, eu teria continuado a ignorar seus pedidos de ajuda, mas o fato é que minha jornada incluiria paradas em Londres, Sussex, Dorset, Nottingham, Peterborough e Banbury e, francamente, não queria ficar preso em nenhum desses lugares se, por algum milagre, o carro estivesse dizendo a verdade. Então, enquanto eu escrevo, ele está no hospital, ainda fingindo estar doente, e tenho que encarar um dilema.

Esse carro tem apenas três anos de uso e percorreu menos de 64.400 quilômetros. É praticamente novo. E ainda assim, apesar do que dizemos no Top Gear o tempo todo sobre Alfas e como uma quebra é um sinal de “caráter”, a coisa mais importante que você precisa de um carro para ser usado todo dia é confiabilidade. E não tenho certeza se estou preparado para gastar os próximos anos dirigindo por aí com meus dedos cruzados. Não torcendo para chegar a meu destino, apenas torcendo.

Não quero vender minha Range Rover porque eu teria que comprar outra, e os modelos mais novos são tão terrivelmente vulgares, com suas grades cafonas e seus faróis brilhantes idiotas. Mas provavelmente irei fazer isso, e como há milhares de outras pessoas na mesma situação, acho que conseguirei vendê-la por £1,48 (R$3,92).

Isto é estranho. Quando me barbeei pela primeira vez, quando tinha três anos, mais ou menos, ganhei um aparelho de barbear do meu pai de presente, e eu o apreciava. Mas agora, compra-se um aparelho de barbear e joga-o fora quando as lâminas ficam levemente cegas.

E não são apenas aparelhos de barbear. Dá para comprar câmeras à prova d’água descartáveis. Isso é quase inconcebível para alguém da minha idade. Uma câmera que funciona no fundo do mar, que você usa uma vez, e joga-a no lixo. Toda essa tecnologia. A fábrica. As complexidades e os custos com logística. Tudo isso para que você tire a foto de um peixe. Uma única vez.

James May vai ainda mais longe. Ele compra um relógio, em média, a cada três horas e, portanto, deve ter uma coleção que ocupa sua casa inteira. Enquanto eu aposto que seu avô foi sepultado ainda usando o relógio de bolso que ele ganhou de presente no seu 21º aniversário.

Mas não posso criticar porque, ontem, o iPhone do meu filho pifou – onde já se viu algo assim – e eu disse que ele poderia usar um dos meus celulares antigos. Tenho seis deles. Dá para acreditar? O iPhone está à venda há cinco minutos, e já estou no meu sétimo aparelho.

Certo, alguns quebraram, mas três foram trocados simplesmente porque a capa rachou, ou eu estava numa loja e notei que tinha um modelo mais novo. Isso é loucura. Jogar fora uma câmera, um telefone, um toca-discos, um navegador de internet e um aparelho para pousar aviões, e gastar £400 (R$1.060) num substituto simplesmente porque a nova versão existe.

E isto vem de um homem que sempre corta a parte de cima de um tubo de catchup para ter certeza que usarei tudo antes de jogá-lo fora. Eu me odeio por causa de todo esse desperdício, de todo esse consumismo devasso. E mesmo assim, aqui estou eu, pensando em passar minha Range Rover para frente simplesmente porque ela pode – pode – ter gripe de homem*.

O pior é que não estou sozinho. Dá para comprar uma Mercedes-Bens SLS praticamente nova por £50 mil (R$132.600) abaixo do valor de tabela, simplesmente porque o dono já se cansou dela. Ou que tal um Aston Martin DBS por menos de £100 mil (R$265.150)? São £60 mil (R$159.100) abaixo do preço de tabela. E a porcaria nem mesmo foi tirada da embalagem.

Como agora há muita gente que veem o carro como algo descartável, isso são ótimas notícias para quem ainda tem um pouco de bom senso. Porque isso significa que o mercado está inundado com carros que ainda tem 8 ou 10 anos de uso antes de serem mandados para a reciclagem.

Tente isto: uma Mercedes CL500 do ano 2000 com 257.500 quilômetros rodados – apenas £4.750 (R$12.600). Ela, então, é um carro do Século 21 – uma versão duas-portas do Classe S, pelo amor de Deus – com todos os opcionais disponíveis, incluindo um DVD player e rodas AMG, e ela é sua por um valor menor que qualquer porcaria odiosa e maçante que seja o carro novo mais barato à venda atualmente na Grã-Bretanha.

Uma CL por £4.750 – e estou falando da versão com a bela janela traseira – é simplesmente absurdo. E enquanto 257.500 quilômetros podem parecer muita coisa, o cara que vem me buscar em festas, quando exagero na bebida, tem uma Classe S que percorreu 482.800 quilômetros. E ela ainda parece nova.

Do mesmo ano, e pelo mesmo valor, mas com bem menos quilômetros nas costas, poderia comprar uma BMW M5. E não estou falando de alguma relíquia antiga com seis canecos debaixo do capô. Estou falando do grande e largo V8 5.0 litros.

Há inúmeros Audis, Bentleys e Lexus lá fora também, todos custando ao redor de £5 mil (R$13.260), e todos com fôlego suficiente para irem até a Lua e voltar. Claro, eles irão sorver combustível, mas quando pagou-se apenas £5 mil por um carro que custa £120 mil (R$318.200), quem liga?

Claro que você não deve comprar um carro clássico. Ele terá um preço muito alto e, não importando o quão atraente a idéia pareça, você sempre deve evitar carros exóticos baratos porque eles serão mais frágeis que uma asa de morcego. Mas uma Mercedes-Benz ou uma Audi ou uma Range Rover? Você não está apenas comprando uma barganha. Você também está estuprando um plutocrata e, apesar de eu nunca ter tentado isso, aposto que a sensação é boa.

*Gripe de homem: man flu; termo britânico pejorativo; refere-se à idéia de que, quando os homens têm um resfriado, eles exageram nos sintomas e dizem ter uma gripe.

Fonte: Top Gear (08/04/2011)
Tradução: John Flaherty

Toda Segunda-Feira, traremos artigos escritos por Jeremy Clarkson, falando sobre vários tópicos, quase todos sobre carros. Fiquem ligados.

Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 05/09/11, em Matérias traduzidas e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 27 Comentários.

  1. está engraçado

  2. Paulo Freire

    lol, fods a parte do tubo de catchup! Eu faço isso mas com o da pasta de dente por preguiça de ir na mercearia comprar um novo…

  3. gostei do q o Clarkson disse tmb uso o produto ate o final e tmb pq comprar 0KM se tem bons usados de custo beneficio interessante q ainda proporcionam prazer e conforto!!

  4. Sabias palavras do Sr Clarkson.

    Mudando de assunto, pessoal desistiu de traduzir as temporadas mais antigas?

    • Não desistimos nada, mas nem sempre podemos manter um ritmo constante, apesar da nossa vontade de querer fazer exatamente isso.

      • rodolfo gutierrez

        Ola primeiro queria parabenizar pelo blog e pelas legendas mesmo de coração Obrigado , segundo sera mesmo que o fim do Top Gear esta chegando ?????

    • O problema é que, durante a 17ª temporada, estávamos de recesso na faculdade e agora todos os membros, trabalham e fazem faculdade, sobrando apenas a noite para fazer as coisas do blog.

  5. alguém viu que no netflix brasil tem topgear em portugues?

  6. é tenso o comunismo O.o

  7. Sim.no Brasil tem neguinho que comprar carro 1.0 em 60X(nada contra quem comprou) mas o mercado de usados reserva carros “mais carro” digamos assim. ou até muitas vezes compra carro para se aparecer para o vizinho.

  8. Eu queria a BMW E39 M5 ano 2000. Foi e ainda sou fascinado por aquele modelo da M5.

  9. Libenter

    Prova de que Top Gear e Clarkson não são só: POWEEEEEEEERRRRR.
    Ele é mais inteligente do que aparenta ser na série.
    Quem dera os apresentadores da televisão brasileira tivessem 1/10 do senso crítico que ele tem.
    Um dia quem sabe…
    Obrigado John!

    • Rolland T Flackphayser

      É sinal que você não está assistindo aos canais certos.

      Tem jornalista no Brasil com senso crítico muito mais afiado do que o Clarkson, mas o povo prefere assistir ao Pânico e A Fazenda, rubish!

  10. Atualmente, os carros novos tem uma depreciação absurda pelo simples fato de ser barato e fácil de se comprar um novo, vejo alguns vizinhos e conhecidos trocando ano sim, ano não, o seu Classic por um modelo novo, ao invés de mantê-lo por uns 4/5 anos e trocar em um ‘bom carro de verdade’.

    Ainda existe o limiar do velho e clássico. Estes carros citados pelo Jezza vão chegar em um ponto de tão baixo valor que vão ser relembrados por seus tempos áureos, e aí o preço começa a subir de novo. Ex.: Há pouco tempo se achava Mavericks por preços baixíssimos e em estado mediano, hoje qualquer casca podre de Maveco vale mais do que quando era novo! Deixou de ser uma velharia pra virar um ‘clássico’, sendo que muitas das vezes ele continua sendo uma grande porcaria, só com um visual legal e uma cara-de-muscle-que-não-é-muscle.

  11. Jeremy Clarkson discreve como é Warthog, o jipe do game Halo.

    abç…

  12. lukinhas.killer

    Realmente o consumismo vriou algo comum até pras classes mais baixas!!!!
    eu fico indignado vendo gente se matando pra pagar 400/500 reias de parcela por um pelado e manco classic etc…

    por isso amo meu Tempra…as alegrias superam os incovenientes de peças caras e absurdos falados por ignorantes!

    []s

    • Compreendo amigo, tambem preferiria ter um tempra do que um classic manco…

      O porem é que em algumas ocasiões é impossivel manter essa pratica, por 3 anos tive um Vectra B 2.2, excelente carro, tinha uns 10 anos de uso, mas eu adorava ele, e ainda tirava “onda”, ja que estava muito bem cuidado, o problema é que eu usava muito o carro, algo em torno de 100km por dia todos os dias do ano, então ora ou outra ele quebrava algo, ou precisava de uma manutenção preventiva, o que me dava prejuizos multiplus, Hoje pago 60x por um carro OKM, sei que é um valor absurdo, estou sendo roubado pela montadora, pelo banco e pelo governo, mas o fato é que NO MEU CASO não tenho saida, pois nesses 9 meses que estou com o carro, nunca fiquei sem ele (a não ser nas revisões) ou fui surpreendido pelo acaso.

      Óbvio que se meu uso fosse da casa pro trabalho/escola, e não tivesse meta de horarios e compromissos a cumprir, certamente estaria andando de Passat 2005 1.8 turbo tiptronic hehe

      Abraços!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: