Hammond sobre as alegrias da restrição fiscal

Sob o risco de ficar preso no beco-sem-saída onde James May cometeu a asneira de perguntar aos milhões de espectadores sobre aquela “sensação efervescente na base do seu pênis quando você dirige certos carros” (apenas para descobrir que ninguém jamais experimentou uma sensação efervescente na base ou perto da base do pênis ao dirigir qualquer carro), eu gostaria de perguntar sobre um momento em particular que, tenho certeza, será bem familiar ao aficionado profissional de carros.

É aquele momento de êxtase pungente, comovente e cheio de culpa quando você olha o formulário, ergue a caneta, olha novamente para o formulário e abaixa a caneta até a linha pontilhada, sabendo que irá relembrar estes poucos segundos com pesar e vergonha, mas fará isso ao volante do melhor carro que você podia convencer o banco a comprar para você.

É o momento financeiro, aquela fração de segundo quando, naquele turbilhão de desejo e fogo automotivo, você concorda com condições de empréstimo que salvariam a Grécia, para que possa pegar as chaves do carro no pátio que você sabia que não poderia pagar mas simplesmente teria que comprar.

Eu irei mais longe e confessarei que, no passado, eu inclusive justifiquei as catastróficas ramificações financeiras do acordo argumentando que tal carro, seja um velho Opel Manta ou um desconjuntado Cavalier SRi, daria um impulso à minha auto-estima e me faria ter uma percepção mais alegre da vida que, como um apresentador freelancer de rádio, só poderia beneficiar minha carreira e, no fim das contas, mais do que pagaria a si mesmo.

Claro que isso nunca aconteceu. Ele me arruinou, e quando tinha uns 25 anos, enquanto ainda liquidava empréstimos por carros que foram parar no ferro-velho há muito tempo, meu único meio de transporte por um ou dois anos era uma bicicleta. E roxa, ainda por cima. Passei 10 bons anos liquidando um empréstimo de três anos por uma bela Honda NSR 125R que conquistou meu coração numa loja, numa época quando uma lata de feijão era um luxo. E ainda assim, eu diria que estava, na época, melhor que um xeque do petróleo escolhendo a cor do seu próximo Bugatti Veyron.

E o princípio básico desta minha teoria nova e extraordinária? Limites e restrições.

Meu Cavalier SRi era uma viatura policial antiga. Sejamos honestos, ele não teve uma existência tranquila, tendo sofrido por 10 anos nas rodovias e estradas principais de Lancashire, nas mãos de tiras agitados perseguindo hooligans em “hot hatches” roubados. Mas ele era branco com pára-choques cinzas e uma fina faixa vermelha ao redor dele.

Ele tinha um rádio com uma frente removível e rodas de liga leve, e ele, com certeza, iria me tornar um apresentador tão confiante e preparado da BBC Radio Lancashire que, um dia, eu lembraria da compra do SRi como o momento mais influente na minha carreira e, portanto, o melhor investimento que poderia fazer.

Claro que não foi; ele devorava pneus dianteiros com um apetite que não me permitia saciar o meu apetite no supermercado, e finalmente morreu em algum lugar na floresta de Bowland. Mas apenas depois que alguém roubou o rádio. E o painel removível que eu, obviamente, não havia removido. Tudo isso me deixou bem triste. Claro que não aprendi nada, e o troquei por um Scirocco cinza-escuro que era absoluta e completamente maravilhoso. Até que os mancais das bielas quebraram na rodovia A49.

Mas eu argumentaria – e lá vem a teoria – que uma vez vi uma tristeza maior no rosto de um jovem muito, muito rico, durante filmagens numa parte vasta do mundo. Ele estava vendo eu e a equipe lutando para filmar a 52ºC. O assistente de câmera estava deitado na traseira de um carro com exaustão térmica. Estávamos tirando sarro do operador de som por ter uma cor engraçada no rosto. E o garoto rico observava com um rosto desprovido de esperança, vida e energia.

Se ele quisesse, ele poderia pedir um celular e fazer uma ligação para pedir um Bugatti Veyron coberto de ouro, e ele estaria lá antes que tivéssemos filmado nossa próxima sequência. Mas todos seus amigos já tinham um, então de que adiantava? Na verdade, qual carro ele poderia comprar que impressionasse a eles de alguma maneira ou, mais importante, fizesse com que ele sentisse um pouquinho da ilusória efervescência do James May?

Nenhum, eu diria. O que ele precisava era de um talão de cheque menor e um pedaço de papel confirmando que, se ele entregasse mais de 90% do seu ordenado, ele até poderia pegar as chaves de um Cavalier SRi 1985 com uma faixa vermelha ao redor dele e rodas de liga leve. E encontrar um bando de amigos que ficassem impressionados com ele e admiriados com esta esplêndida coisa nova e que o curtissem com ele. Até que o carro explodisse.

Claro, tudo isto pode ser pura besteira, mas prefiro pensar que é melhor a gente acreditar que não é.

Fonte: Top Gear (12/10/2010)
Tradução: John Flaherty

Toda Quarta-Feira, traremos artigos escritos por Richard “Hamster” Hammond, falando sobre vários tópicos, quase todos sobre carros. Fiquem ligados.

Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 28/09/11, em Hammond, Matérias traduzidas, News e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 13 Comentários.

  1. john enganaste-te na data

  2. Poucas coisas podem ser tão felizes à um adolescente que compra seu primeiro carro e vê no documento “Sem restrição”, enquanto a maioria tem um “Alienado Banco do Brasil”. Mesmo que o seu pago seja um pouco pior que o outro financiado, dá sempre aquela sensação: Mas é meu!

  3. Nossa..por algum motivo gostei muito do texto.Eu sou daqueles que geralmente pensaria,’Que nada,eu queria ser o menino rico da historia’…mas na verdade,no fundo no fundo o Hammond ta certo,acho muito legal o sentimento de empolgação com essas pequenas coisas conquistadas,nem que elas explodam numa floresta inglesa em pouco tempo…haha

  4. A maioria de nós já teve o suficiente de carros morrendo em florestas ou estradas, para sonhar em ser um nababo capaz de comprar qualquer carro que deseja…

  5. adendo: para não sonhar…

  6. Carlos Galto

    Até hoje o meu MELHOR carro foi o meu primeiro… Um Passat Pointer que vivia fervendo e me transformou num especialista em carburadores Solex 2E alcool. Mas andava pra cacete e me levou a “inúmeras aventuras”!!!! Penava pra pagar o financiamento, o alcool e a manutenção, viajava com a galera sem um tostão furado e a gente se divertia pegando ondas em Cabo Fria, comento cachorros-quentes, bebendo cerveja e pegando as mineiras na night… Não precisava de mais nada na vida!!!

    Atualmente quero outro Passat Pointer!!!!

  7. Andre Bigodao

    http://transmission.blogs.topgear.com/2011/09/29/video-james-and-jeremy-talk-top-gear-live/
    eles estao contando um pouco da proxima temporada, especial na india, tres super carros pela italia, vale a pena

  8. jimmy kowalsky

    meu primeiro carro foi o ultimo carrinho do vovo.um chevetinho dl 90/91 branco everest 2,1,6/s.ele o comprou em meados de 92 com 120 mil km e emplacado em itu sp,a mais e 150 km de onde moravamos,o antigo dono era taxista…depois ele falecer em 94,ficou com o meu pai,q pagou todos os 5 anos de licenciamentos atrazados mais umas 10 multas que juntas valiam o preço da tabela da fipe na epoca,e q inclusive continua valendo na tabela a mesma coisa até hj,+-7 mil reais,e esse foi o acordo entre ele e a minha vo…meu pai ficou com ele por uns 8 anos,e depois eu tirei a minha carta e fui usando até ficar pra mim por “uso capião”,em meados de 2002,na verdade eu ja o usava antes para pequenas coisas,como levar a tv pro concerto,vó pro mercado e parar na frente da escola (50 metros de casa) só pra chamar a atenção dos meus colegas de classe…enfim,nesse caminho todo,nunca deu dor de cabeça,a exceção e uma vez,onde o automatico do motor de arranque q teimava em não funcionar e durou pra resolver,pois o meu pai teimava junto cm o defeito,em usar peças recondicionadas,e só o sanou quando comprei uma bosh original e instalei eu mesmo.enfim,ja se fazem quaze 20 anos q o meu vo comprou o chevetinho,a menos de 15 ainda era o carro do papai,e a menos de 10 era o q me levava do meu trabalho pras baladas com os meus amigos,as primeiras menininhas no banco trazeiro…ainda o possuo,hj ja cm os seus 600 mil rodados!a sensação de dirigir ele é como se eu me lembra-se q quando eu tinha 8 anos e andava com o meu avo,e de toda a travessura q fizemos na minha adolecencia…nenhum carro moderno me trara essa sensação.breve irei restaura-lo..mais acho q andarei com esse chevetinho,feliz para sempre…

  9. Interessante ele teve um Chevrolet Monza.heheheh(Cavalier SRi).

    Mas voltando ao assunto ele falou uma coisa que eu achava que só acontecia aqui

    1Comprar carro para se aparecer para o vizinho.

    2Pessoas se arrebentam para comprar um carro.(passam fome).

    3Hammond já esteve no mesmo barco que eu estou hoje:andando de bicleta.heheheheh(esse está um pouco fora,mas é só uma menção honrosa)

    4

  10. 4Pessoas querem carro a qualquer preço e pagam muuuuuuuuito caro.

  11. É SÉRIO? http://www.youtube.com/watch?v=oay6ykzcqzo
    não sabia que o Stig era o shuma :s

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