Clarkson fala sobre fazer um DVD

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Ao final de toda temporada do Top Gear no verão, a maior parte da equipe ruma para a praia, buscando descanso e relaxamento. Mas eu não. Com a bomba final ainda ecoando nos meus ouvidos, tenho que começar a trabalhar no meu DVD de Natal anual.

Neste ano, vocês se juntarão a mim na pista de Paul Ricard, a uma hora ao norte de Marseilles. É um caleidoscópio de cor e som, um esplendor em Technicolor na árida hinterlândia bege. É excelente. O céu é um domo azul contínuo, mais ao sul posso ver o Mediterrâneo brilhante e cintilante, e o hotel local tem um restaurante com duas estrelas Michelin e uma recepcionista extremamente bonita.

Para tornar tudo ainda mais perfeito, estou aqui com a equipe de filmagem do Top Gear, que é muito divertida à noite. Na noite passada – após muito vinho, eu admito – decidimos que, para nosso especial de Natal, James, Richard e eu devemos novamente virar os Interceptors e partir em busca do melhor penteado “cobre-careca” do mundo. Nesta manhã, eu podia ver algumas falhas nessa idéia, a principal sendo que não queria usar um bigode por duas semanas.

Mas tudo bem. Tudo está bem no meu mundo. Exceto por uma coisa. Estamos filmando carros, e carros são um maldito estorvo.

Não pedimos muito deles. Eles têm que andar para que as câmeras do lado da pista possam gravar as derrapadas e a fumaça e o barulho. Então, nós prendemos uma câmera no carro de perseguição e filmamos algumas tomadas. E então, nós instalamos câmeras on-board, e eu gravo as coisas que quero dizer ao volante. Simples. Exceto que nunca é.

Nós começamos com a Ferrari FF que, como vocês sabem, é o primeiro hatchback da história da Ferrari e a primeira a vir com tração integral. É um sistema fantasticamente complicado que usa um pequeno câmbio de duas velocidades e duas embreagens montado na frente do motor e movida diretamente pelo virabrequim. A idéia é, quando as rodas traseiras perdem tração, a eletrônica avisa o sistema na frente, e tração é enviada para a roda dianteira que possa ajudar mais.

O problema é que o carro parece ter um chassi tão bom que o câmbio dianteiro parece não fazer nada na maior parte do tempo. Fiquei convencido que nem mesmo estava ali. Até a metade do dia, quando notei que os pneus dianteiros estavam completamente acabados. Metade de um dia, e eles estavam gastos. Inúteis.

Então, mudamos para o McLaren MP4-12C, que seria usado numa corrida de arrancada contra vários rivais. É fácil filmar uma corrida de arrancada. Coloque as câmeras na linha de largada para gravar o começo. Aí, você pára, coloca as câmeras na metade da reta para gravar o meio e, então, coloque-as no final para gravar a chegada. Isso significa três largadas paradas. Três tentativas com o controle de largada. Moleza.

Mas infelizmente, após duas tentativas, o McLaren decidiu que estava com muito calor e que precisava descansar. Então, trouxemos o Nissan GT-R. “Não tem como isto falhar”, eu disse quando entrei nele.

Dois minutos depois, eu estava com a cara no manual, tentando descobrir o que a insignificante luz de aviso no painel estava indicando. E por que seu controle de largada também chutou o balde.

Então, levamos o GT-R ao seu hospital e começamos a trabalhar com o BMW 1M. Dez minutos depois, muitos antes que tivéssemos uma chance de gravar qualquer tomada de perseguição ou tomadas internas, um dos produtores estava conversando por telefone com a borracharia mais próxima, perguntando se eles faziam entregas a domicílio.

A pista de Paul Ricard não é especialmente abrasiva, e a temperatura estava a agradáveis 31 graus. E ainda assim, nenhum dos carros que trouxemos estava aguentando mais do que metade de um dia antes que precisassem de auxílio médico.

E isso antes de chegarmos no novo BAC Mono. É um carrinho de aparência fabulosa. E se você ver além da carroceria – que foi inspirada no F-22 Raptor – notará que a beleza é mais do que superficial. Todas as mangueiras e parafusos parecem ter sido instalados por uma equipe de pessoas que realmente se importam.

Então, lá fui eu, e imediatamente sabia que o filme curto que havíamos planejado para este carro não seria o bastante. Eu o adorava. Diferente de um Ariel Atom V8, ele não tem uma vontade de sair de frente em direção a uma árvore quando a oportunidade surgisse. Há um pouquinho, só para que saiba que está exagerando um pouco, mas aí, ele se agarra e acelera. Não há uma inclinação perceptível, nenhum movimento ao frear. É devidamente ajustado. Sem dúvida.

Mas o que mais gostei acima de tudo foi a falta de velocidade. Os números sugerem que ele fará de 0 a 96 km/h em 2.8 segundos e que, de pé embaixo, fará 270 km/h, o que parece assustador. Mas não é, e isso significa que podia me concentrar nas frenagens para conseguir o melhor tempo possível. Não para continuar vivo.

Parte do motivo disto é que, apesar do motor indicar Cosworth na lateral, na verdade ele usa o mesmo bloco usado num Ford Galaxy.

E apesar do câmbio ser uma unidade de Hewland inspirada pela F3, ela funciona como o câmbio num Golf GTI. É a mesma história com o volante. Havia todo tipo de botões e visores, mas a maioria estava desconectada. Resumindo, então, ele se parecia com um carro.

Eu estava confortável, também. Não podia fazer polichinelos no cockpit, ou tocar meus dedos do pé. Na verdade, não podia mover nada além das partes frontais dos meus braços, e meus pés. Mas era tudo que precisava.

Então, houve um pequeno incêndio. Nada sério. Era apenas uma pequena peça de acabamento de fibra de carbono ao redor do escapamento que ficou um pouco quente demais. Então, o câmbio parou de funcionar. E então, o motor decidiu que não gostava muito de rotações baixas.

De jeito nenhum isto deve ser visto como uma crítica. Eu estava num protótipo de pré-produção, então não estou sugerindo que os carros que forem comprar irão agir desta maneira. Mas estou sugerindo que seria mais fácil filmar um DVD sobre jardinagem. Solo não se desgasta. Narcisos são superaquecem. Gramados não precisam de câmbios.

É enormemente excitante derrapar com uma Ferrari 458 por uma curva. Muito mais excitante que cuidar de uma rosa, por exemplo. Mas precisam se lembrar que, após ter criado alguma fumaça, os pneus estarão gastos e o diferencial estará superaquecendo. Pode levar qualquer carro aos limites de suas habilidades. Mas só apenas uma ou duas vezes. E quando se trata de fazer um programa de televisão, isso nunca é o bastante.

No entanto, há uma exceção à esta regra. Há um carro que nunca fica quente, ou faz manha. Ele até é cuidadoso com os pneus. Estranhamente, é a Lamborghini Gallardo.

Fonte: Top Gear Magazine (Setembro de 2011)
Tradução: John Flaherty

Toda Segunda-Feira, traremos artigos escritos por Jeremy Clarkson, falando sobre vários tópicos, quase todos sobre carros. Fiquem ligados.

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Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 03/10/11, em Jeremy Clarkson, Matérias traduzidas, News e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. Pra gente vê que nem os super carros são perfeitos! =D

    • É mesmo, veja o exemplo da F1: Investem muita tecnologia, vários milhões de $$$, e ainda mesmo poupando o carro acontece de quebrar. Achei interessante o comentário sobre a Gallardo, foi parecido com o que ele fez em relação ao SLR Mclaren quando o usou em um desafio contra o James e o Richard.

  2. Carlos Galto

    O “problema” é que para um filme sair plasticamente interessante os caras precisam ficar fazendo drift pela pista…

  3. Pedro Henrique

    Já tinha ouvido falar dessas frescuras do controle de largada. Principalmente no GT-R, depois da terceira vez ele vai mostrar que o sistema está aquecendo e perdendo rendimento, até pedir arrego de vez. Mas o q faria alguém pensar que seria diferente? Todos os supercarros sempre tiveram falhas desde o inicio dos tempos, e hoje em dia, é simples perceber que existem mais componentes mecânicos nos sistemas de transmissão/tração e alem disso estão sendo exigidos ao extremo, sendo assim, maiores são as chances de falhas e de atingirem as suas limitações.

  4. Uma pena não ser os Interceptors, foi uma das melhores produções TG, talvez ainda ressucitem os personagens em um futuro teste… Gallardo, ainda pilotarei um.

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