O Código de Trânsito dos céus do Hammond

182

Como foi mencionado no programa ao final da temporada passada, tenho brincado um pouco com helicópteros ultimamente. Mas “brincar um pouco” é um epíteto nem um pouco apropriado quando aplicado a uma criatura aparentemente capaz de catapultar uma pessoa pelos portões do Paraíso ao menor sinal de que irá fazer uma besteira.

É um helicóptero pequeno, mas ainda é, bem, um helicóptero e dizer que um helicóptero pequeno é bonitinho e inofensivo é o mesmo que colocar uma piranha nas suas calças. Mas apesar da estranha sensação de que, junto comigo e meu instrutor, a cabine tem uma terceira e sinistra presença carregando uma foice e um sorriso esquelético, isso tem sido um desafio maravilhoso e emocionante.

Tenho usado meu cerebrozinho ordinário para compreender coisas como Empuxo Total do Rotor, Retreating Blade Stall e Efeito Translacional. Aprendi sobre os horrores do Vortex Toroidal e da importância de evitar a Curva do Homem Morto e coordenei minhas mãos e olhos até um nível que ninguém acharia possível, principalmente para alguém que muitos vêem como o garoto magrela e de joelho fraco que pisa na bola na cara do gol.

Tudo deu certo na minha busca pela minha licença e para ser liberado para viajar pelo mundo até onde minha imaginação me levar. Posso aterrissar em terreno inclinado (estacionar num aclive), manobrar num espaço limitado (dar meia-volta), voar contra o vento (acelerar), e erguer o nariz para parar o helicóptero (frenagem de emergência) com certa facilidade.

O passo seguinte foi meu primeiro vôo solo. Este é um grande momento para pilotos em treinamento, e algo que quem está aprendendo a dirigir um carro não pode compreender. Quando meu pai estava me ensinando a dirigir, em nenhum momento ele me pediu para parar num cruzamento em Ripon, saiu do Astra e me disse para seguir em frente, ligar para ele de Leeds para provar que cheguei lá e dirigir de volta para casa. Mas é isto que pedem ao piloto de helicóptero em treinamento, e sabia que minha chance estava chegando logo. Eu cheguei neste ponto crítico do meu treinamento no fim de 2009. E então, encontrei uma parede – claro que é modo de falar.

Antes que a CAA (Autoridade de Aviação Civil) permita a um piloto em treinamento voar sozinho, ele precisa passar no exame médico oficial do CAA. É razoavelmente rígido, mas nada diferente para quem tenha aprendido a mergulhar ou conseguir um plano de saúde. Só tem um pequeno problema. Dois, na verdade. Acontece que têm duas coisas que a CAA particularmente detesta, e são danos cerebrais e pedras renais; duas coisas que “Hammond R” carrega consigo.

Portanto, minha busca para virar um piloto de helicóptero está paralisada. Recebi bem a notícia, tive apenas reações leves, como ficar aborrecido, berrar, quebrar coisas, chutar baldes de lixo, arremessar canecas de chá e sentar com cara emburrada. Depois de apenas uma semana fazendo tudo isso, eu decidi que, enquanto a CAA avaliava o meu case (vamos encarar, não adianta nada mentir se me perguntassem, ‘algum acidente nos últimos cinco anos?’), iria me inscrever nos exames da Ground School.

Estes exames, pelo menos em parte, podem ser compreendidos pelo motorista em treinamento. Se você conhece alguém que está sofrendo para conseguir sua carteira de motorista, você terá visto que ele tem que ler o Código de Trânsito e aprender a reconhecer as placas e lembrar das distâncias de frenagem para a parte escrita do seu teste de direção. Isto é praticamente o equivalente do que os pilotos em treinamento tem que estudar. Mas parece que este Código tem cerca de 80 mil páginas dividas em 100 livros, cada um com um título longo e complexo o bastante para fazer um fusível queimar no cérebro Hammond e fazer gosma escorrer por um ouvido.

Claro que James May terá passado pelo mesmo tipo de treinamento para conseguir seu brevê.

Enquanto a maneira de pilotar uma aeronave de asa fixa tem muito em comum com o jeito de pilotar um helicóptero como usar um celular com câmera tem com operar uma máquina de tomografia, a parte onde se aprende lendo livros é amplamente similar. James terá passado por esta parte sem problemas, o seu cérebro massivo terá crescido só um tantinho mais para acomodar meros milhões de fatos novos.

A experiência para mim foi mais tensa. Me senti como um produtor de foie-gras, enfiando comida em um ganso com um funil até seu fígado explodir enquanto lia e relia livros sobre o tempo, leis, navegação e comunicação. Eu enfiei enormes nacos de informação na minha cabeça, forçando-o a engolir VMC (Condições Meteorológicas Visuais), VFC (Condições Visuais de Vôo), IFC (Controle de Vôo Inteligente) e IMC (Condições Meteorológicas de Instrumentos), junto com ventos catabáticos e gradientes de temperatura adiabático saturado até que senti o órgão inchado em questão pressionar contra meu crânio. Mas estou chegando lá.

Estou esperando que a CAA me aprove para meu vôo solo a qualquer momento, então lá vou eu sentar-me ao volante de novo e sonhar com o dia que irei voar de verdade. E sabe qual a mudança mais significativa até agora? Você deveria ver quanto tempo de manobra e espaço dou para motoristas em treinamento nas ruas. Paciência? De repente, sou o homem mais paciente do mundo.

Fonte: Top Gear (Fevereiro de 2010)
Tradução: John Flaherty

Toda Quarta-Feira, traremos artigos escritos por Richard “Hamster” Hammond, falando sobre vários tópicos, quase todos sobre carros. Fiquem ligados.

Anúncios

Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 12/10/11, em Hammond, Matérias traduzidas, News e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 11 Comentários.

  1. galera esse aki é o 1º episodio do Top Gear? http://www.tudou.com/programs/view/KXz4Ky-O5Ts/
    s1e1??

  2. James também tem brevê de helicóptero ou “só” de aviões?

  3. Michel Veras

    Gostei do que está escrito na cauda: “G-OHAN” seria uma referência ao Gohan do dragonball?

  4. Isso aí Hammond! Força que dará tudo certo!
    Logo estaremos vendo você voando, literalmente falando, no TopGear! 😉

  5. Eu sou bem parecido com o Hemmond…no que nao se trata da parte fisica,tenho 1,82m de altura =p …mas adoro Porsches e helicopteros

  6. Creio que um desafio com Jeremy em um carro, James em um avião e Richard em um helicóptero esteja próximo de acontecer.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: