Jeremy Clarkson e a Grã-Bretanha quebrada

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Hoje, se uma coisa é feita para realizar uma tarefa, ela realizará essa tarefa por pouco tempo, então ela quebrará, e você a jogará fora.

Isto se aplica a tudo, exceto kits de fondue. Na verdade, talvez possa ser aplicado a kits de fondue também, mas não dá para saber porque os kits de fondue de todo mundo estão no fundo de um armário de cozinha onde têm estado desde a noite fatídica, há 30 anos, quando o kit tombou, derramando óleo quente sobre seu tio e matando-o.

A outra exceção a esta regra é o tubo de limpador de fornos “Easy-Wipe” que você viu ser anunciado na televisão. Limpadores de fornos não param de funcionar depois de pouco tempo. Na verdade, eles nunca funcionam.

Enfim, isso aplica-se a todo o resto. Examine, por favor, a prova A: seu celular. Há quanto tempo você o tem? Estou disposto a apostar que a resposta é “menos de dois anos”. Bom. Então, o que houve com o outro que você tinha antes? Está numa gaveta, não é? E está quebrado. Podia não estar quebrado quando você o colocou lá. Mas agora está.

Esse é o milagre das coisas que são feitas para realizarem uma tarefa no século XXI. Elas certamente quebram quando você as deixa cair no chão ou dentro da privada ou de um barco. E elas quebram sem razão nenhuma numa Terça-Feira. Mas elas também quebram quando deixadas sozinhas.

Prova B? Bem, pode ser uma máquina elétrica comprada para você (ou para seus pais) como um presente de casamento. A sua torradeira velha funciona? Que tal a Magimix? O microondas? Não. Você o jogou fora anos atrás porque, de repente, ele decidiu quebrar um dia, junto com o DVD player portátil que você comprou quando foi lançado. Ainda tem seu primeiro iPod? Claro que não tem. Ele parou de funcionar em 2005.

Deixe-me mostrar uma lista das coisas que eu tenho agora, e das que não estão funcionando. As luzes na minha varanda. As luzes no meu jardim. A internet no meu flat. O telefone no meu flat. Meu aparelho Sonos. Meu laptop. O cadeado do portão do padoque. Até mesmo o mourão esquerdo na entrada da minha garagem.

Ele foi montado há apenas 10 anos, mas no inverno a água que penetrou na pedra congelou, descongelou e fez a parte superior explodir em pedacinhos. Sim, é isso mesmo. Hoje em dia, nem conseguimos fazer um mourão que aguente. Era possível criar uma maldita catedral na Idade Média, usando lama e carvão. Mas não conseguimos fazer um mourão hoje.

E eis a maior chateação de todas. No breve período quando algo realmente funciona, ela ganha um valor inestimável. Você nem imagina como conseguia viver sem ela. E quando ela pára de funcionar, sua vida está arruinada.

Imagine tentar trabalhar hoje em dia sem um celular. A não ser que você seja um mergulhador, ou um minerador, isso seria impossível. Conseguíamos antes, mas agora seria como tentar trabalhar sem uma cabeça. Ou pulmões.

Sky+ é outro belo exemplo. Costumávamos assistir a um programa de TV quando estava no ar. E então, passávamos alguns anos de joelhos, com nossos traseiros empinados, ajustando o timer nos nossos videocassetes para uma Terça-Feira, para gravar um programa que passou no Domingo. E então, veio a Sky+. Quando isso não funciona, e é isso que acontece quase sempre, parece que seu rosto foi amputado.

Tudo isso está deixando a vida extremamente cara, porque quando algo deixa de funcionar, não é possível consertá-la. Ninguém pode consertar uma Sky+ ou um iPhone. Precisa comprar um novo. E você precisa comprar um novo imediatamente porque é impossível viver sem um.

Parte do problema é do designer. Se um item foi feito simplesmente para realizar uma tarefa, então pode ter uma chance de não quebrar. Mas como tudo hoje em dia foi feito por um “designer”, a “forma” pode jogar a “função” para escanteio. Isto aplica-se, especialmente, a sapatos.

A idéia é, claro, que se você tiver um produto feito por um “designer”, não importa quando ele quebrar porque quando quebrar, estará fora de moda e será hora de comprar um novo. Neste mês, por exemplo, eu deveria torcer para que meu iPhone exploda de repente, porque aí teria uma desculpa para comprar a nova versão com a opção de vídeos em alta definição.

Eu decidi que, se fosse recomeçar minha vida, eu construiria uma casa sem nenhum tipo de gadget nela. E quando digo “sem gadgets”, me refiro a coisas do século XXI. As paredes não teriam isolamento. As janelas seriam feitas de madeira. A luz viria de lâmpadas de 40 watts, daquelas incandecentes. Lavadoras de louça que consomem pouca energia, com função um-toque e que facilitam nossas vidas? Nada disso. E eu teria uma máquina de escrever.

Estranhamente, no entanto, não sei se aplicaria esta lógica – e é uma lógica de verdade – aos carros.

Passei muito tempo nas últimas semanas dirigindo carros dos anos 1980, algo que, quando se tem minha idade, é chamado de “ontem”. Mas apesar da relativa proximidade, nenhum deles tinha air-bag, ou GPS, ou ABS, ou conectividade com iPod, ou válvulas no escapamento para produzir sons melhores em altas rotações, ou apoios laterais dos bancos ajustáveis, ou limpadores de pára-brisa automáticos ou nada das coisas que até mesmo um Kia Cee’d possui.

Claro, todas as coisas mencionadas tornaram-se inestimáveis no momento em que foram inventadas. Se eu compraria um carro hoje em dia que não pudesse tocar as músicas do meu iPod? Nem a pau. E é o mesmo com o GPS.

No entanto, o que torna estes produtos diferentes dos produtos na sua casa é que todos eles ainda estão funcionando.

Você acerta buracos no asfalto a 112 km/h. Você deixa-os do lado de fora quando está nevando e quando está a 35ºC. Você deixa seu cão brincar com todos os botões. E eles continuam tocando Doobie Brothers e acham a rota mais rápida até Bishop’s Stortford.

É a mesma história com o resto do carro. Quando foi a última vez que ele teve uma quebra? A não ser que tenha um Peugeot, a resposta é “não me lembro”. Quando foi a última vez que um pneu furou? Há não muito tempo, um pneu explodia porque ele cansou de ser um pneu. Agora, você pode dirigir por uma fábrica de pregos e ainda continuar com 30 psi nos pneus.

Parte da razão para isto é que, apesar dos eforços árduos e compreensíveis das montadoras para tornar seus produtos itens descartáveis de “designers” para serem comprados e descartados como bolsas, eles ainda são uma “grande compra”.

Mas tem mais. A BMW sabe que, se você comprar um Z4 e ele quebrar depois de seis minutos, você irá trocá-lo por uma Mercedes quando a oportunidade chegar. Nada de mais. São praticamente a mesma coisa. Ambos têm volantes, pedais, velocímetro, rodas e por aí vai.

Este é o nosso problema com iPods e Sky+ e cafeteiras da Gaggia e os serviços de internet da British Telecom. Se decidir mudar de produto, você ficará com mais manuais de instrução, mais botões incompreensíveis e, realisticamente falando, com as mesmas chances de quebra total em alguns dias. Então, quando meu iPhone quebrar, eu compro outro. Nem mesmo penso num Raspberry.

Portanto, tenho uma sugestão. Para tornar o mundo um lugar melhor e mais fácil, deveriam deixar as montadoras comandá-lo. No momento, elas estão tentando engolir umas às outras. Isto precisa parar. No lugar, elas devem engolir todo o resto. Quero a Ford controlando a Apple. Quero que a Mercedes compre a Gaggia. Quero que a BMW me venda um freezer que funcione. E quero que um cara da Nissan arrume meu maldito mourão.

Fonte: Top Gear (01/08/2010)
Tradução: John Flaherty

Toda Segunda-Feira, traremos artigos escritos por Jeremy Clarkson, falando sobre vários tópicos, quase todos sobre carros. Fiquem ligados.

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Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 24/10/11, em Jeremy Clarkson, Matérias traduzidas, News e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 5 Comentários.

  1. PQ grã-betanha ta quebrada agora vai ficar pior q o estados unidos mas tomara q ñ se vc ver videos de super-carros com (a maioria) só uma unidade ta la em londres eu vi um video na internet q apareceu até o citroen GT (grand turismo)

  2. Poderiam Traduzir o episodio do Peel P50

  3. Bom texto…o final principalmente…também quero a BMW me vendendo um freezer que funcione =p

  4. Tudo o que um dia foi ou é o Melhor tende a Mudar…

    e realmente é o que está começando a acontecer, e o que já aconteceu, como temos milhares de exemplos na história.

  5. Carinha, não tem nada com a matéria, mas teria como alguém da equipe legendar esse vídeo?

    É coisa muito rara, até achar o vídeo em inglês é complicado. Pode ser só a legenda que eu baixo o vídeo e ponho a legenda.

    Obrigado!

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