James May e a falta de vagas

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A maior ironia do carro é que o lugar onde ele causa mais problemas é justamente o lugar onde mais se precisa dele; ou seja, nas cidades. Carros não são muito bons para viagens longas pois precisam ser dirigidos, o que é uma distração um tanto irritante. Para ir de Londres a Edimburgo o trem faz muito mais sentido, é mais rápido, e possui um bar.

Ainda nesse raciocínio, só um idiota iria dirigindo da Inglaterra até a Itália, até porque seria necessário passar pela França. Um Boeing 757 faria a mesma viagem em um décimo do tempo e, como dizem os jovens, é o canal.

Mas isso ainda faz precisar de um transporte até a estação ou aeroporto, e é por isso que você sempre precisará do carro. Os defensores do transporte público podem falar o quanto quiserem da integração, dos bondes e do bem da comunidade, mas nada se compara à conveniência de algo que sai da porta da sua casa exatamente na hora em que você quer. Portanto, nossas cidades sempre estarão cheias de carros.

No entanto, ao contrário do que todo mundo acredita, o problema não está nos carros que estão sendo dirigidos, mas nos que não estão sendo dirigidos. Ao longo das duas últimas semanas eu até usei bastante o transporte público, e calculei que nas últimas 336 horas meu Fiat Panda esteve em uso durante apenas oito delas, ou patéticos 2,4% do tempo total. Por 97,6% do tempo ele ficou estacionado na rua juntando cocô de pombo. A todo momento, um punhado de carros está fazendo algo útil mas o resto só está atrapalhando o caminho.

Não duvido que parte do problema seria resolvida se todos comprássemos um Smart ForTwo ou um G-Wiz, mas aí só estaríamos trocando um problema social por outro – no caso, provavelmente depressão e baixa auto-estima coletivas.

Também tenho a leve suspeita de que a maioria dos Smarts são na verdade comprados por pessoas ricas como um meio de transporte urbano em vez um substituto para outro carro, o que significa que agora temos um carro e meio na rua no lugar onde existia apenas um.

Portanto, concluo que o que realmente precisamos, já que ainda não inventaram um carro dobrável, são mais garagens.

Eu definitivamente preciso de mais espaço na garagem, o que pode significar que preciso de uma casa nova, então fui dar uma volta. E fiquei horrorizado com a falta de garagens nos arredores de onde moro.

Para dizer a verdade, a maioria das casas foi construída antes de o carro ser inventado, e algumas placas azuis proclamam que um dia algum escritor Vitoriano morou nelas, mas isso não é desculpa. Os Vitorianos provavelmente derrubaram tudo e começaram do zero, e parece que é hora de fazer como eles.

Eis meu plano: minha pequena propriedade é (ou costumava ser, antes de o país ser arruinado) surpreendentemente valorizada, mas a casa em si não corresponde a muito desse valor. Eu sei – porque preciso pagar o seguro – que construí-la novamente do zero não me custaria mais do que 150 mil libras (R$415 mil).

Ao mesmo tempo, uma casa consideravelmente maior com uma garagem – e perto o bastante do pub para que eu possa ir até lá andando – vai me custar mais 750 mil libras (R$2.08 milhões), sem contar com roubo de selos e taxas de transferência, o que me parece uma maneira muito cara de se guardar alguns carros.

Mesmo mesmo assim, seria mais fácil encontrar uma casa onde George Cruikshank desenhou um esboço de Oliver Twist do que uma que satisfaça os requisitos de um estilo de vida moderno. Em todo caso, na verdade eu não quero uma casa maior. Uma casa maior significa ter que comprar mais móveis e tapetes, mais telhado para cair, e mais chances de alguma visita inconveniente aparecer para pernoitar. Tudo o que eu quero é mais espaço na garagem. Afinal, é onde passo a maior parte do meu tempo, e isso tende a piorar.

Então acabo de decidir que a conclusão inevitavel dessa charada é que eu deveria demolir minha casa e construir uma mais moderna, com um aproveitamento de espaço eficiente, aquecedores econômicos, sistema elétrico de baixa voltagem e, mais importante, UMA GARAGEM GIGANTESCA.

Por favor, me avisem se encontrarem alguma falha nesse plano.

Fonte: The Telegraph (Março/2009)
Tradução: Dalmo Hernandes (Jalopnik Brasil)
Revisão e postagem:
John Flaherty

Toda Terça-Feira, traremos artigos escritos por James May, falando sobre vários tópicos, quase todos sobre carros. Fiquem ligados.

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Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 01/11/11, em James May, Matérias traduzidas, News e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 9 Comentários.

  1. Excelente, penso igual… e a mensalidade das garagens particulares estao ficando cada vez mais caras…

  2. parabéns pelo texto. Continuem assim !

  3. ainda bem q na minha cidade só ñ yem vaga no domingo sabado e segunda e terça e quarta e quinta e sexta e feriado pere ai … merda

    • haeuheauaehuaehaeuhaeuheahae

      A minha também está desse jeito, o pior de tudo isso é que a maneira que eles encontram pra controlar a quantidade de carros estacionados é aumentar o preço do estacionamento regulamentado. Só que eles esquecem que quem para o carro só por alguns minutos também paga a mesma quantia (proporcionalmente falando) de que quem fica estacionado muito mais tempo, sacanagem.

  4. Pedro Henrique

    Texto perfeito, o mesmo acontece aqui em Copacabana. Edifícios velhos, sem garagem, carros por todas as ruas e o único estacionamento subterrâneo custa R$10,00 a hora!

  5. Gustavo M.

    Distração irritante dirigir o carro em viagens?? Ah..então divertido é só passar a mão em grandes esportivos para acelerar na pista do Top ou em circuitos ao redor do mundo; achei um tanto fora de tom para quem – em teoria – deveria adorar dirigir, mesmo que os outros meios de transporte sejam mais sensatos (trem ou avião).

    • Mas esse é o James May. Quem vive aceitando desafios pra provar a superioridade do carro em longas viagens é o Clarkson. Como naquele episodio da corrida até a Suécia, com Clarkson numa Mercedes fodona enquanto Hammond e o May iam de navio …

    • Pedro Henrique

      Dirigir em rodovias “retas” e cheias de limitadores de velocidade como é por la, em viagens longas é entediante mesmo. É totalmente diferente do prazer que se tem em atacar uma estradinha em uma serra onde você sente o carro e não é só um passageiro.

  6. _sou fã de garagens grandes, terei uma para o minimo caber uns 6 carros!

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