Jeremy Clarkson e o terrorismo

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Quando você ler isto, eu espero estar apresentando o Top Gear Live ou na Austrália ou na Nova Zelândia. Mas é mais provável que eu esteja no aeroporto de Heathrow, de pé em um scanner corporal, enquanto um monte de seguranças dão risada da pequenez do meu “bilau”.

Sem dúvida, não terei sapatos, nem cinto, nem laptop, nem pasta de dente, nem desodorante e, agora que um nigeriano demonstrou que é possível alojar explosivos na fenda entre as nádegas, nem cuecas. E pelo privilégio desta humilhação, eu tive que ficar numa fila que ia até Macclesfield.

Se eu pudesse dirigir até a Austrália – e James pensou nisso antes de eu ter mostrado as partes azuis no seu globo especial – eu teria feito isso. Como um carro parte quando você quer partir, isso não causa trombose venosa profunda e você não precisa sentar-se ao lado de uma pessoa gorda. A não ser que eu tenha dado carona a você.

Além disso, não são precisos três horas para carregar sua bagagem no porta-malas – a não ser que você seja Coleen Rooney e tenha um Hillman Imp – e você não é convidado a comprar um relógio ou um conversor de moeda ou um livro para levar ao banheiro.

As coisas que permito entrar no meu carro incluem dardos, armas, tacos de beisebol, cetros, fogões portáteis e instrumentos musicais. Nenhuma dessas coisas são permitidas em um avião. E se você estiver no mesmo carro que eu e fizer uma piada sobre terrorismo, eu darei risada. E não prendê-lo.

Eu odeio aeroportos.

Queria que alguém inaugurasse uma companhia chamada “Eu Vou Arriscar Air”. Ela funcionaria baseada neste princípio: você dirige até a porta do avião, você embarca imediatamente sem ter que passar por nenhum tipo de checagem, e então ele decola. Se ele explode, ele explode e terá sido por um preço bem pequeno.

Infelizmente, no entanto, ninguém pensou num negócio desse tipo, o que significa que somos forçados a aguentar buscas estúpidas – e sem sentido – antes que possamos embarcar. E não discuta. Elas são sem sentido.

Antigamente, você era escaneado para ter a certeza que você não tinha uma arma ou uma lâmina com a qual você poderia sequestrar o avião, mas essas medidas não detiam aqueles que achavam que, ao cometerem suicídio, teriam uma vida regada a leite e mel e com um milhão de mulheres virgens. Em outras palavras, um detector de metal não consegue deter o Fulano Suicida.

Então, depois de 11 de Setembro de 2001, não podíamos mais embarcar no avião se tivéssemos um taco de beisebol ou um par de tesouras. E então veio Richard Reid com seus incríveis sapatos explosivos, o que significava que teríamos que tirar nossas sandalhas e colocar nossos cosméticos num saco plástico transparente.

E então veio o nigeriano com sua bomba na cueca, e agora temos que mostrar nossos pênis aos seguranças. E vai continuar assim para sempre. Os americanos criam uma restrição, os terroristas encontrarão uma maneira de burlá-la. Então os americanos criarão outra restrição e os terroristas encontrarão uma maneira de burlá-la.

Enquanto isso, pedem para que eu e você façamos o check-in 16 dias antes da hora da partida para que um bilhão de pessoas trajando coletes de alta visibilidade possam perguntar um monte de perguntas idiotas e examinar cada um dos seus folículos. É tudo estúpido demais para resumir em palavras.

Eu estimo que nos próximos 10 anos, eu gastarei 1.800 horas em filas nos aeroportos. São 75 dias da minha vida roubadas por esta idéia idiota de que homens-bomba podem ser mantidos longe dos aviões. Eles não podem. Fim de papo.

Exceto que o papo ainda não acabou, pois pense nisto. Não há seguranças quando você entra num trem e se for pensar nisso, por que não tem?

Uma bomba bem posicionada num expresso intermunicipal não causaria apenas destruição no vagão em si, mas causaria muitas mortes no descarrilamento subsequente. E diferente de um avião que costuma cair longe de tudo, no mar, um descarrilamento pode ser visto. Pode ser filmado. Ele estará no noticiário. Em termos de vítimas e de publicidade, uma bomba num trem seria muito mais eficaz para os terroristas do que uma bomba num avião. Você sabe disso. Eu sei disso. Os governos sabem disso. Mesmo assim, ainda pegamos o expresso noturno para Edinburgo sem nos preocuparmos com nada.

E na verdade, para a máxima eficácia, os terroristas poderiam causar ainda mais destruição se eles esquecessem o transporte público e mirassem as estradas.

Eu sei que a BBC – que publica a Top Gear Magazine – tem que ter um pensamento regional hoje em dia e que, para citar algum exemplo, eu devo escolher um lugar tipo Barnsley ou Bombaim. Mas não conheço Barnsley ou Bombaim muito bem, então fiquemos com Londres.

Vamos imaginar, só por um momento, que um alerta de segurança feche o viaduto de Hammersmith, onde ele cruza a Broadway. Isso cortaria o acesso de Londres à rodovia M4. Agora vamos ter outro problema parecido um pouco mais ao norte, no trecho elevado da rodovia A40. Mais um incidente em Brent Cross, que é o umbigo de Londres com o cordão umbilical que é a rodovia M1, e pronto. Ninguém poderia entrar ou sair da capital mais importante na Europa.

A não ser que queira ir para Essex. Ou Kent. E ninguém quer fazer isso.

Você consegue imaginar o caos se Londres não pudesse acessar seu principal aeroporto e um milhão de trabalhadores ou mais não pudessem chegar ao trabalho numa manhã? Este seria um dos maiores atentados na história do terrorismo e eu não sou a única pessoa no mundo a ter pensado nisso…

Mas você treme de pavor quando passar por aqueles viadutos a caminho de Londres? Você gostaria que existissem um portão de segurança e um scanner corporal? Não. Você dirige normalmente por eles, reclamando de leve dos corredores de ônibus e escutando o Chris Evans para esquecer do trânsito.

E só estou falando sobre alertas de segurança aqui. Imagine se houvessem bombas de verdade. Imagine se aqueles viadutos fossem derrubados. Num país qualquer, eles seriam reerguidos em semanas, mas aqui investigações teriam que ser feitas. Associações para a vida animal insistiriam que besouros nativos teriam que ser removidos antes que os reparos pudessem começar. Orçamentos sairiam do controle. Bilhões seriam gastos. Haveria muito desperdício. Anos se passariam. E Londres estaria acabada. Acabada, por causa de três bombas pequenas que, se elas explodissem no meio da noite, poderiam não ter machucado uma única pessoa.

Presumo que as forças de segurança sabem das implicações de tal ataque. Também presumo que eles imaginaram pontos de estrangulamento mais científicos dos que eu imaginei, lugares onde problemas ainda maiores poderia ser causados. E o que eles fazem a respeito?

Bom, eu dirijo muito pela M1, pela M40 e pela M4 em direção à Londres e, com exceção de algumas câmeras vagabundas que são projetadas principalmente para flagrar pessoas fazendo conversões proibidas, não há evidência de que haja segurança alguma.

Isso não me preocupa. Eu não quero mais segurança nas estradas. E nem estou pedindo por mais segurança nos trens. Não. Estou simplesmente chamando sua atenção para outros alvos, para mostrar que a situação nos aeroportos é absurda e ridícula.

Também é contraproducente. A única maneira de derrotar o terrorismo, no fim das contas, é ignorando-o. Se for reagir a qualquer coisinha saindo correndo, balançando seus braços no ar e berrando, os idiotas saberão que estão afetando você.

E se você paraliza os aeroportos do mundo, então eles sabem que não estão apenas afetando você; eles estão vencendo.

Fonte: Top Gear (Abril/2010)
Tradução: John Flaherty

Toda Segunda-Feira, traremos artigos escritos por Jeremy Clarkson, falando sobre vários tópicos, quase todos sobre carros. Fiquem ligados.

Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 14/11/11, em Jeremy Clarkson, Matérias traduzidas, News e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. Vitor Silva

    Por essa razão que eu amo o Brasil. Última vez em Congonhas ninguém olhou em minhas nádegas, checou meus sapatos ou o que dirá minha bagagem de mão, que acredito que passou por um detector de metais que não funciona desde os anos 70.

  2. Clarkson sempre consegue falar com propriedade contra as babaquices modernas e o medo global sem fundamento.
    Esse cara é um gênio!

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