RH quer um CB

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Nunca tive um rádio CB no começo dos anos 1980, e isso me incomodava. Certo, também nunca tive uma BMX ou um skate, mas o rádio CB me atraía feito uma bandeja de hambúrgueres num spa. Jeremy dirá que eles são utilizados apenas por assassinos em veículos 4×4 para trocar informações sobre sites com pornografia violenta e para planejar rituais satânicos. Mas ele é um homem que passa tempo demais decidindo qual tipo de azeitona ele deveria acrescentar na sua salada de rúcula e loganberry, para darmos ouvido em assuntos que não envolvam uma delicatéssen. Eu queria um porque os caminhoneiros dos filmes tinham um e diziam coisas maneiras e usavam números quando queria dizer “sim” ou “não” e tinham “indicativos de chamada”. O fato é que rádios CB eram simplesmente legais e eu realmente não conseguia entender porque todo caminhão e todo carro de família no país não tinham um para que pudéssemos dirigir dizendo coisas legais.

E então, da noite para o dia, eles sumiram. Quando eu tinha a mínima chance de decorar meu primeiro carro com uma antena e inventar meu próprio indicativo de chamada, eles simplesmente se juntaram e fugiram da nossa ilha. Claro, o celular havia sido criado, e a comunicação entre os carros era possível. Mas você precisa saber o número da pessoa, ao invés de apenas passear pelas rodovias berrando: “Breaker-breaker, 1-9, copia” e tudo mais. Você nunca encontrará um estranho querendo ajuda para livrar-se dos botinas-pretas com um celular. E o gerente do seu banco não chama você pelo CB para falar sobre saque a descoberto. Mas o CB desapareceu e permaneceu assim, até onde eu sabia. Até recentemente.

Estava filmando nos EUA, com um bando de lenhadores nas colinas do Oregon. Para chegar até os lenhadores, tivemos que dirigir por uma hora e meia, por 32 quilômetros de estradas arruinadas floresta adentro. No primeiro dia, o lenhador de bigode branco que veio me buscar com sua picape velha levou a gente até um portão de metal e adentramos a floresta para começar o longo percurso. Enquanto ele fazia isso, ele pegou o monofone de um rádio CB, apertou o botão, da mesma maneira que eu imitava aos 10 anos, e falou com sua rouca fala lenta.

“30 quilômetros, chegando, picape, duas vezes”, foi tudo que ele disse. Foi a primeira vez que pensava em um rádio CB em 30 anos, e, de repente, eu queria um de novo.

O rádio em si era um aparelho bem trivial. A força vinha do acendedor de cigarros, um único cabo saía pela janela até a antena, e o próprio rádio era apenas uma caixa bege, da metade do tamanho de um rádio de carro. Viramos à esquerda, o motorista mexeu no dial para trocar de canal no CB e falou novamente no monofone.

“Início da trilha, 21 quilômetros, picape, duas vezes, chegando.” E o aparelho ganhou vida a partir daqui, disparando uma sinfonia de vozes sem fim. Caminhoneiros transportando 60 toneladas de toras avisaram que estavam se aproximando. Todo veículo nas trilhas dos 100 mil acres de floresta identificava a si mesmo, a direção para onde iam e sua posição em relação aos marcos presos nas árvores a cada meia milha.

Mas isto era mais do que um equipamento de segurança; pessoas apareciam para trabalhar, indo passar solitárias horas na floresta derrubando árvores. Alguns estavam deixando a montanha, seus caminhões carregados e pesados, seguindo para as serrarias do outro lado do Estado. O rádio CB era seu ponto de encontro, seu bebedouro, seu refeitório. Claro, as ondas aéreas estavam reservadas para transmissão de informações de segurança e avisos de problemas com máquinas, pedidos de ajuda, mas na essência dessas conversas tinham mensagens condificadas. Apelidos eram utilizados, arrancando risadas de outros motoristas. Perguntavam sobre filhos logo em seguida, a breve consulta e a resposta curta formavam amizades.

E então eu entendi porque o rádio CB que queria tanto quando era criança evaporou da Grã-Bretanha. Não tínhamos nada a dizer. Caminhoneiros não partem em longas jornadas e ficam com vontade de saber como andam as coisas em casa; eles dirigem até Manchester. Quando dirijo do trabalho até minha casa, eu divido a M4 com milhões de outros trabalhadores, esprimidos entre obras que sabemos que estão lá porque elas têm estado lá desde o dia que nunca terminaram de construir a rodovia. Se nada muda, sobre o quê nós falaríamos? Nós somos britânicos, nós não conversamos, nem tagarelamos. Se tivéssemos adotado o rádio CB, haveria um longo e embaraçoso silêncio que teria durado até hoje e, pelo jeito, até depois de amanhã. Eu vou satisfazer minhas românticas idéias sobre dividir a estrada com outros viajantes com um aceno para outro dono de Land Rover ou acenando para motociclistas com minha cabeça.

Fonte: Top Gear Magazine (Novembro/2011)
Tradução: John Flaherty

Toda Quarta-Feira, traremos artigos escritos por Richard “Hamster” Hammond, falando sobre vários tópicos, quase todos sobre carros. Fiquem ligados.

Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 29/11/11, em Hammond, Matérias traduzidas, News e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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