Clarkson: o melhor carro para minha filha

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Há cerca de 35 milhões de veículos nas estradas da Grã-Bretanha, voando para lá e para cá a velocidades de quebrar o pescoço por casas, escolas, asilos, e pubs fechando para o dia. E mesmo assim, apesar disto, apenas 3 mil pessoas são mortas em acidentes todo ano. São números incrivelmente baixos, e todos nós deveríamos estar orgulhosos.

Já dei esta mesma opinião no passado. E ela sempre provoca reação de alguém cujo filho está deitado num necrotério porque algum velho tapado com pressa saiu de casa com seu Nissan Micra, esqueceu os óculos em casa e acertou um ônibus escolar.

Eu sei que, estatisticamente, sua morte era inevitável. Mas não dá para dizer isso a uma pessoa cujo sofrimento é tanto que ela gostaria de estar morta também. Não dá para discutir racionalmente com alguém que ficou insano de tanto sofrimento. Alguém que não consegue parar de chorar. Eles querem limites de velocidade menores. Testes de direção mais rigorosos para os idosos. Lombadas mais altas. Punições mais severas para quem corre demais. E, se eu estivesse no lugar deles, eu iria querer tudo isso também.

Tive um momento parecido recentemente, quando minha filha fez 17 anos e, portanto, tinha idade o bastante, na opinião do governo, para dirigir um carro. Mas qual carro?

Falamos sobre este assunto no Top Gear no passado, e, claro, fomos sensatos. Bem, sensatos com um toque de irreverência. Mas quando é a sua filha que está prestes a entrar de cabeça num turbilhão infestado de fracos, loucos e cegos, você precisa sentar-se, pegar seus óculos de leitura e pesquisar bem. Visual? Velocidade? Preço? Dirigibilidade? Todas as coisas que normalmente importam, de repente, não importam mais. Só estava interessado em segurança. Queria um carro com 2 mil airbags. Queria um castelo inflável com limpadores de pára-brisa.

Como deve saber, a FIA possui um programa independente de segurança chamado NCAP que testa todos os carros novos e dá-lhes um número de estrelas. Na teoria, isto deveria ser deveras útil. Na prática, não é, porque para conseguir a classificação máxima de 5 estrelas, as montadoras agora projetam seus carros para irem bem nos testes específicos. Mas acidentes sempre são estranhos, imprevisíveis. E um carro projetado para permanecer intacto quando abalroado na lateral num ângulo de 90º pode desintegrar-se se for atingido num ângulo de 72º. Não tem como saber.

Como resultado desta incerteza, segui uma linha de pensamento bem simples. Quanto mais metal, melhor. Queria que minha filha tivesse algo absolutamente enorme. Um Volvo com elefantíase. Aquele veículo usado para transportar os ônibus espaciais. Eu queria a cidade de Lincolnshire, com rodas. E pára-choques como os lábios inferiores de uma criança mimada. Infelizmente, obviamente seria preciso um motor enorme para mover tal coisa, e é onde você esbarra nas companhias de seguro. A minha disse que estaria interessada em segurar minha filha apenas se o motor fosse pequeno bastante para caber numa caixa de fósforos. E isso, claro, queria dizer um carro pequeno.

Bem. Vamos deixar as coisas bem claras. Um cara de terno, em Norwich provavelmente, ou Frankfurt, estava dizendo que minha filha, a coisa mais preciosa na minha vida, tem que enfrentar as estradas sem nenhuma experiência, em um carro com um nível de proteção parecido com o de uma sacola de compras. Passei um tempo imaginando que tipo de som ele faria se eu enfiasse alguns palitos de coquetel nos olhos dele.

Então, voltei à pesquisa. Carros pequenos que eu achava adequados para minha filha. Um Mini? Bom, sim, exceto que ele não é pequeno, e, como resultado, mesmo os modelos básicos precisam de um motor 1.4 para movê-los. E isso era grande demais para o nosso amigo em Norwich, ou possivelmente Frankfurt.

Esse é exatamente o mesmo problema com o “baby” Alfa e o Honda Jazz. Que tal o Fiat 500? O modelo TwinAir é um carro que gosto muitíssimo, e seu motor é pequeno o bastante para manter as seguradoras felizes. Mas eis o problema. Você pode ter um Fiat 500. Você pode comprar um para seu filho. Mas estamos falando da minha filha aqui, e me desculpe, mas ele é pequeno demais.

Pense assim. Se eu pedisse a você para acertar um poste a 80 km/h, você escolheria uma picape Mitsubishi Warrior L200 ou um Fiat 500? Pois é.

O Toyota iQ e aqueles carrinhos franceses cujos nomes nem me importo em saber também têm o mesmo problema. Tudo bem se você tiver experiência, mas não são bons quando você é muito inexperiente e, estatisticamente, tem mais chances de acidentar-se.

Eventualmente, após muita pesquisa, acabei me decidindo por um Ford Fiesta. Motor 1.2, certo. Maior que a maioria de seus rivais, certo. E, não que isso importe muito, é mais bonito também. Não tão bonito, no entanto, como agora.

Minha filha, como a maioria dos adolescentes, não mostra enorme interesse por carros, mas ela tem uma quedinha pelo Shelby Mustang de um amigo. Então, pedi que seu carro novo fosse branco com duas faixas azuis. Ele ficou absolutamente ridículo. Era um urso coala usando uma fantasia de Super-Homem. Um cãozinho usando luvas de boxe.

Na verdade, parecia um bisão albino andando num monociclo, então, para resolver isso, pedi rodas aro 17, que foram pintadas de branco, para combinar com o resto do carro. Coloque faróis permanentemente acesos, do modelo do ano que vem, acrescente um spoiler de teto, algumas saias laterais e um spoiler dianteiro, e o resultado final, se puder dizer, é simplesmente brilhante pra c… É bem Essex, graças aos calçados brancos, mas tem algum problema com isso quando se tem 17 anos? Não.

Está bem bonito por dentro, também, porque o nome Fiesta está exposto nas soleiras das portas com uma luz vermelha, e tem uma tela de GPS no retrovisor interno.

Mas a melhor coisa deste carro é isto: ele é gloriosamente lento. Numa corrida de 0 a 96 km/h, a Geologia ganharia dele. Sente a bota a 80 km/h e em 5º marcha, e absolutamente nada acontece. Isto me deixa muito alegre.

De acordo com o manual, o carro tem 61 cavalos. Mas não estamos falando de garanhões aqui. São 61 pôneis Shetland.

Isto significa que ultrapassar qualquer coisa é simplesmente impossível. Então minha filha será forçada a dirigir na mesma velocidade que a coisa mais lenta na estrada. Ou seja, James May. E já que ele fica parado na maior parte do tempo, seja porque ele está dando passagem a alguém vindo pela via perpendicular ou porque está perdido e está consultado um mapa, as chances de um acidente são reduzidas drasticamente.

O Ford Fiesta 1.2, então, é minha sugestão para o carro perfeito para seu filho. E é preciso que preste atenção, porque estamos falando do seu filho. E nada é mais importante que isso.

Fonte: Top Gear Magazine Awards 2011
Tradução:
John Flaherty

Toda Segunda-Feira, traremos artigos escritos por Jeremy Clarkson, falando sobre vários tópicos, quase todos sobre carros. Fiquem ligados.

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Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 11/12/11, em Jeremy Clarkson, Matérias traduzidas, News e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 22 Comentários.

  1. Ótimo texto, pra variar… Enquanto o questionamento de Clarkson é sobre dar um carro seguro à filha, no Brasil a realidade provavelmente seria a cruel decisão entre dar uma moto popular ou dar um fiat uno em 72 vezes, o que tranquilizaria os pais imensamente.

  2. meu primeior carro é um tempra, e como não term seguro, tem potencia e metal pra a dar e vender pra me proteger hauauhauhauhau

    []s

  3. meu primeiro foi um ford ka 1.6, não é um mega hiper esportivo, mas em termos de brasil onde 70% da frota eh de carro 1000 ter um carro de 950 kg com 110cv de potencia não era ruim nao

  4. Meu primeiro carro quase foi um Gol GTi 94, esse ai da foto abaixo!!


    Para meu azar o banco não quis me dar o dinheiro que restava!

    • PQP,que coisa linda esse Gol.banco FDP!

    • Mano….eu tenho 19 anos,to doido pra ter um GOL igual a esse….mas queria o meu branco..muito lindo ele…e olha que eu ja andei em Mercedes,POrsches e BMW’s….mas esses brasileirinhos superam na paixao =p

    • Skiegaard

      Bom carro tenho 1 desses, primeiro carro q comecei a dirigir a um 1 ano atras foi um desses so que chumbo e 93.

  5. meu primeiro carro foi um……..mini-bug!! hahahahaha

  6. O meu foi um protegé, seguro, estável e com bom motor [diga-se, demais].

  7. Estou na luta pelo primeiro carro.mas tudo bem,acho que esse tal Fiesta 1.2 é fraco(por que se trata pelo New) e o nosso 1.0 é bem mais fraco ainda.é tão fraco que não sobe ladeira….

  8. Carbonera

    […] Isto significa que ultrapassar qualquer coisa é simplesmente impossível. Então minha filha será forçada a dirigir na mesma velocidade que a coisa mais lenta na estrada. Ou seja, James May. […]

    uahuahauhauhauhauhauhahuahauhauahau

  9. é igual escrevi no meu blog, brasileiro só compra carro pela potencia que é anunciada, mais não ve a rotação e nem o torque….

    de que adianta o celta ter 70CV se a faixa de uso é LAAA em cima e o torque é quase o mesmo de um uno de 15 anos atras???
    esses carros são feitos pra serem economicos, e acelerar até o talo pra subir ladeira ou manter velocidade de cruzeiro não adianta nada!

    []s

  10. kkkkkk , tá certo jeremy só deveriam lembrar a ele que a menina É FILHA dele.. o resto…

  11. TVizzotto

    o meu primeiro foi um Vectra Elite 2.2 16V. Me arrancava um rim por mês pra abastecer, e o outro rim no fim do ano quando tinha que renovar o seguro.
    Mas era divertido ao extremo.

  12. Libenter

    Mais uma vez um excelente texto do Clarkson!
    Parabéns a toda equipe pela tradução dos textos e dos episódios!

  13. Meu primeiro carro foi um Comodoro 1990 preto completo de segundo dono (presentão do pai, que ia medar um GTS e acabou comprando algo mais “seguro” e mais lerdo, já que era 4 cilindros).
    5 anos com o carro e só alegrias, até hoje me arrependo de ter vendido! agora ando de GL 92 (Gol) mas troquei o Opalão na época por um bolinha 16v (merda) depois num Voyajão 95 (o azarado)

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