Dr. Hammond e Mr. Richard

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A primeira vez que eu apertei um botão Sport num carro e notei uma diferença sensível foi numa Ferrari 360 Stradale. Na verdade, era o botão de desligar o controle de tração, e para ser justo, logo que eu o apertei eu me acidentei. Mas o ponto é, pelo menos eu fiz algo excitante e – ouso dizer? – dinâmico. O fato é que a maioria dos carros produzidos com um botão Sport nos serviriam melhor se mudassem o que está escrito para “Desapontamento” ou “Anticlímax”. Por uma razão, é ridículo pra um carro sport de qualquer espécie ser equipado com um botão Sport. É um carro esportivo: o que eles pensam que nós estávamos esperando?

De qualquer maneira, há tempos venho argumentando que o botão Sport do meu 911 chega perto de atingir um nível aceitável de satisfação quanto qualquer botão em qualquer carro esportivo no mercado. Mas, para ser honesto, mesmo esse botão apenas deixa o som do escape um pouco mais nervoso, transforma a suspensão numa bigorna e aumenta a resposta do acelerador, para que nossos pequenos cérebros de motorista pensem que estamos num carro mais rápido… Não é mais sofisticado do que mudar uma marcha na sua bicicleta. Então, se o exemplo que pensei que era remotamente bom é, honestamente, uma porcaria, qual é o ponto? Especialmente nessa semana, quando tive uma lição definitiva de como um veículo na verdade pode fazer essa coisa de Médico e Monstro com tal ferocidade que poderia remover o botão do painel do meu 911 e seguir com a vida.

Em um momento recente de impulso eu comprei uma antiga Kawasaki KR-1S – bem, para ser honesto, estava longe de casa trabalhando feito pirado e a vi na internet, e pensei que se eu a comprasse enquanto estivesse longe da minha esposa, ela não notaria. Ela notou.  Mas tem uma coisa: ela gostou. Agora, para aqueles que não falam “motonês”, a KR-1S é uma moto pequena de 2 cilindros com 250cc. A minha é cor verde “Caco, o sapo” e, para ser honesto, não é o melhor exemplar desse modelo. Está um pouco surrada, mas um exemplar novinho custa quatro vezes mais do que o exemplar que comprei no eBay.

Eu realmente não estou fazendo justiça à ela com esta descrição porque a KR-1S é também uma lunática; uma maluca furiosa e desmiolada que pode encarar motos quatro vezes maiores e deixá-las ensangüentadas e envergonhadas. Minha esposa e até minhas duas filhas saíram pra vê-la quando cheguei em casa. E elas gostaram dela. Elas me perdoaram por comprá-la. Elas esqueceram até o fato de eu ter saído do meu carro, jogado minha mala no chão, corrido pela casa e abrido as portas da garagem com as mãos tremulas para ver a pequenina besta verde antes de dar carinho ao cachorro, ver a caixa do correio ou dizer olá para alguém. E elas me perdoaram porque a moto é bonitinha de se ver. É pequena e cheia de curvas. É verde. Ela tem uma pontinha branca na traseira e pneus estreitos. E quando ela é ligada, seu ronco não é mais ameaçador ou potente que o de uma scooter.

Depois de uma apressada xícara de chá, eu me apressei de volta para a pequena Kwak, subi nela e parti numa nuvem de fumaça azul do motor dois-tempos. Ela parecia tão pequena quantos as motos nas quais aprendi a guiar motos há 25 anos. E parecia medrosa, também. Quando tentei ultrapassar uma Land Rover na A40, minha primeira acelerada resultou em uma quase imperceptível mudança no som do escapamento. E então, como um despertador preso a uma banana de dinamite, o ponteiro do conta-giros foi a 7.500rpm, e tudo mudou. De repente, meus olhos foram parar no meu pescoço, meu estômago e meus pulmões se esforçavam para escapar pela traseira do meu jeans, e o cenário de ambos os lados ficaram esticados e finos. O ruído cresceu para um grito primitivo saído de um filme de poltergeist, a Land Rover já não estava mai lá, uma curva aproximava-se, o mundo ficou de lado, e então ele voltou ao normal. Eu ainda estava montado nela, minha mão direita ainda estava no lugar, com meu pulso puxando um acelerador que parecia estar conectado diretamente a todas as forças da Física, da insensatez e do Mal no mundo e que poderia burlá-las como e quando quisesse.

“Caco” ficou louco, lançou um raio da morte, mordeu a cabeça de uma galinha fora, bebeu oito litros de tequila e transou com Miss Piggy numa caçamba do lado de fora de uma boate. Isso que é uma dupla personalidade. Esse é um veículo com duas personalidades distintas. Isso, meus amigos, é um botão Sport. Eu sei porque nós não temos carros com motores dois-tempos (hoje em dia não podemos ter nem motos com esses motores), e eu sei que a massa extra de um carro significa que alcançar esse tipo de resultado com apenas o mínimo de força é praticamente impossível, mas se houvesse um carro capaz de surpreender, chocar e desafiar nossas expectativas tão bem como a minha exausta, pequena e velha moto dois–tempos, então você estaria lendo sobre isso aqui muito, muito rapidamente.

Fonte: Top Gear Magazine Awards 2011
Tradução: lukinhas.killer

Toda Quarta-Feira, traremos artigos escritos por Richard “Hamster” Hammond, falando sobre vários tópicos, quase todos sobre carros. Fiquem ligados.

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Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 13/12/11, em Hammond, Matérias traduzidas, News e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 7 Comentários.

  1. lucasbonessoni

    Muito Bom o Texto, o May não é meu preferido dos três mas curto muito ele…

  2. Um Civic Si ou Marea Turbo fazem esse trabalho, em baixa são tão raquídicos quanto um 1.0, mas estique um pouco e veja seu modo de ver o mundo mudar.

    • O Si eu concordo sobre a rotação, mas o Marea é torcudo desde a marcha lenta praticamente, os motores 2 tempos não tem torque algum em baixa rotação, como os VTEC, mas explodem em uma fúria medonha em alta rotação, acho que os carros que mais se assemelham a moto 2 tempos são os Civic VTi e Si e os Mazda RX8, e principalmente, devido à turbina, o RX7.

  3. “Caco” ficou louco, lançou um raio da morte, mordeu a cabeça de uma galinha fora, bebeu oito litros de tequila e transou com Miss Piggy numa caçamba do lado de fora de uma boate. Isso que é uma dupla personalidade.

    Nunca li algo mais engraçado e oportuno na minha vida.
    É outra das coisas que admiro e gosto. Acho que carros, ou motos, esportivos devem ser empolgantes, sem necessariamente serem intimidantes ou trazer consigo seus 853 cv.
    Por isso que ainda comprarei um 300ZX/350Z/Cayman/Evora da vida.

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