A grande jornada de Jeremy Clarkson

kent

Kent. O jardim da Inglaterra. Homens de suspensórios e camisas sem colarinhos, com rostos retorcidos enquanto espremem maçãs, belos vilarejos, esteiras de fumaça de caças da Batalha da Inglaterra ainda existem como cortes brancos gigantes no enorme céu azul. Kent. Um lugar tranquilo, calmo, amigável e adorável.

Esta é a imagem que temos quando pensamos sobre o cantinho pontudo no sudeste da Inglaterra, mas não temos certeza disso porque, hoje em dia, é praticamente impossível chegar lá.

Os mapas mostram que está ligado ao resto da Inglaterra por uma rodovia chamada M25, e é verdade: ela está ligada. Mas não dá para usar esta superrodovia de seis faixas para ir à Kent porque o trânsito nela parou totalmente em 1989 e não se moveu desde então. Sabe aqueles cartazes de desaparecidos nas delegacias e nas agências de correio? Eu sei onde eles estão. Ao sul de Croydon, dentro de seus Sierras e Corollas. Sendo devorados por gaivotas.

No resto do país, há estradas normais que podemos utilizar quando a rodovia está parada ou fechada por agentes de trânsito superzelosos que viram um pouco de brita na faixa do meio e estão vendo o que podem fazer no grande livro de saúde e segurança. Mas não existem alternativas para a M25 quando se tenta chegar a Kent. Exceto, claro… rufem os tambores, por favor… atravessar Londres.

Meu GPS não estava muito seguro quanto à isso semana passada. “Tem certeza?”, ele perguntou. “Mesmo?” Sim, tinha certeza. E lá fomos nós por sobre o rio Tâmisa, e em direção a uma terra que o tempo não esqueceu. O tempo nunca chegou lá. Você passa por lugares chamados Vauxhall e Stockwell e Camberwell.

Tecnicamente, você ainda está em Londres, mas você so sabe disso por causa dos números de telefone acima das entradas das lojas. Todos começam com 01…

Às vezes, você vê por um momento algo que faz você lembrar que está no século XXI – uma filial da WH Smith, talvez, ou ou um banco do qual ouviu falar – mas pricipalmente são os funileiros e os agentes funerários e os albergues vendendo hidromel. Acho que até vi uma filial da Norwich Union. Lá, a Woolworths ainda tem à mostra balinhas para que sejam roubadas por crianças limpadoras de chaminés com os rostos cobertos de fuligem.

E então, após muitas semanas, quando você sente que deve estar saindo de Londres, você chega em Peckham. Como pode ter levado tanto tempo? Você viu no mapa, logo ao lado da legenda “bruxas aqui”, e você percebe que está muito longe das áreas verdes.

Algumas vez já pensou por que Ranulph Fiennes está sempre explorando os Pólos? Porque ele sabe que uma jornada a Kent seria impossível. É uma jornada que teria derrotado Amundsen. Eles teriam comido seus cães.

Mas você foi longe demais para voltar agora, então você segue em frente, e tudo fica pior. Na maioria dos outros lugares, os edifícios foram derrubados, mas não aqui. Você imagina como as pessoas que vivem no 15º andar podem ser tão gordas. Os elevadores já devem estar todos quebrados, e nem a pau o mecânico da Otis poderia chegar até aqui para consertá-los.

Eventualmente, você chega a um oásis de calmaria chamado Blackheath. As casas são adoráveis. Há um enorme espaço aberto. As pessoas usam cartolas, e os táxis são puxados por cavalos. Há um ferreiro e uma ferraria. E você ainda está longe de Kent. Ainda tem que passar por lugares que aparecem apenas nos mapas. Mottingham? Já ouviu falar de lá? Claro que não. Ela foi dizimada pela praga de 1665. E tem Kidbrooke, e Welling e Crayford. Crayford? Costumavam montar Ford Cortinas conversíveis aqui. Quem sabe? Talvez ainda montem.

Estou num país que é parte do G7, viajando por uma das maiores cidades do mundo, e parece que estou em 1957. Eu tusso e penso se contraí tuberculose.

Claro, para vocês que usam palavras como “ecológico” e “sustentável” irão, a esta altura, perguntar porque não peguei o novo trem de alta velocidade. Bom, eu faria isso se estivesse indo para Paris. Mas eu estava indo para a ilha de Sheppey, e o trem não vai até lá.

Você já esteve lá? Claro que não. Por isso que você não sabe que a fina faixa de água que a separa do resto do país contém uma ponte que faz a Golden Gate parecer uma tora sobre um riacho.

A única razão para construir uma ponte deste tamanho é apenas para que veleiros possam passar por baixo dela. Obviamente, então, Kent está tão distante que seus habitantes ainda acreditam que o “Cutty Sark” ainda é utilizado para transportar algodão para o Porto de Londres. Aqui, suspeito que a letra “s” ainda é dita como um “f”. Talvez por isso os nativos me chamam de sr. Clarkfon.

A ilha de Sheppey é, principalmente, um parque de campismo. Há milhares e milhares de trailers, e acho que todos pertencem a ex-taxistas londrinos, as únicas pessoas na Terra que sabem como chegar lá antes que chegue a hora de dar meia-volta e voltar para casa.

E quanto aos nativos? Bem, costumam ser o tipo de pessoa que chegam em Londres na traseira de um caminhão frigorífico ou segurando-se na parte de baixo de um trem Eurostar. E isso reforça meu ponto de vista muito bem. Mboto conseguiu, de algum modo, evitar os homens armados e os alistadores do exército na sua remota vila nigeriana. Ele caminhou para o norte, evitou a morte e as doenças, e então, de algum modo, conseguiu atravessar o Saara até a Algéria. Aqui, ele conseguiu convencer os seguranças com suas AK-47 a deixarem-no entrar num barco até o sul da Itália onde ele passou despercebido pelos seguranças que nem teriam como vê-lo pois seus óculos Foster Grant eram escuros demais.

Sem um tostão furado, ele atravessou toda a Europa até Sangatte, de onde ele escapou e nadou até Kent. Mas ele caiu numa armadilha. Sair de lá era impossível, então ele simplesmente decidiu criar uma vida nova em Maidstone. De certo modo, o lugar faz ele lembrar de casa. Ele pode ir buscar água no poço. E arrumar um emprego ferrar cavalos.

Vivem nos dizendo que o sudeste da Inglaterra é a sala das máquinas da “UK S.A.”, mas é difícil ver como Kent pode estar contribuindo para isto, já que só consegue fazer negócios com a França. Certamente, seria muito mais fácil chegar lá saindo de Paris do que de Londres.

Algo deve ser feito. Rodovias que vão até Londres partindo do resto do país chegam bem no meio do centro da cidade. Elas não param em 1853. Talvez os projetistas acham que seria difícil demais criar uma passagem através de Mottingham e Kidbrooke. Mas não é, porque eles não estiveram lá desde o século XIII.

Kent precisa juntar-se ao resto do país. Assim como Norfolk. E este é exatamente o momento certo para juntar os pontinhos. Quando a Alemanha estava quebrada nos anos 1930, ela construiu as autobahns. Quando a América estava atravessando a Grande Depressão, ela construiu as interestaduais. E agora que estamos num período de grandes dificuldades financeiras, deveríamos extender a M20 e a M2 até a Praça do Parlamento.

Fonte: Top Gear Magazine (Janeiro de 2012)
Tradução:
John Flaherty

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Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 22/02/12, em Jeremy Clarkson, Matérias traduzidas, News e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 8 Comentários.

  1. bruno zen zortéa

    Ñ LI O TEXTO PQ TO ESPERANDO A LEGENDA

    • kkkkkkkkkkkk agora fudeu…enquanto a legenda não sai, lê o texto que faz bem!!

    • ninguem te obrigou a ler nem comentar

      c vc parasse d reclamar seria melhor

      afinal as colunas do clarkson sao mto interessantes mas necessitam de um conhecimento q vc provavelmente naum deve ter

  2. _muito bom o texto, mais uma X todos daqui estão de parabéns !!

  3. “Você imagina como as pessoas que vivem no 15º andar podem ser tão gordas. Os elevadores já devem estar todos quebrados, e nem a pau o mecânico da Otis poderia chegar até aqui para consertá-los.”

    HAUAHUHAUAH ri MUITO com esse artigo do ClarkFon… o cara é fodástico!

  4. é impofivel não rir fozinho! ahuahuhau hauahuahuhauhauhauha

    Sr. Clarkfon é fenfacional!

    []s

  5. Para quem não conhece o Clarkson, ele pode parecer um troglodita, ignorante e prepotente. Aé acho que as vezes ele passa um pouquinho do limite, mas o cara é assim. Legal de tudo é que ele não tem medo de falar ou reclamar.
    Só acho muito irônico ao ler essa crítica dele pois penso “E ele não viu o Brasil como é” mas claro, são casos diferentes.

  6. Muito bom

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