James May e a nossa obsessão por velocidade

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Não ligo se o seu carro é muito rápido, na verdade ele é muito lento. É muito conveniente e bem versátil, e foi o que tornou-o popular, e dá-nos independência, algo que cobiçamos. Na verdade, ele inclusive é bastante eficiente, já que um galão de gasolina aditivada no meu Panda pode levar 4 pessoas por 80 km. Mas carros não são rápidos.

Numa distância decente, como entre duas cidads, um trem moderno é muito mais rápido. Fui de Londres até York há algum tempo, e ele levou uma hora e 40 minutos. Enquanto isso, uma viagem de Londres até a casa dos meus velhos pais em Devon – cerca de 88 km – levou quase 4 horas em um carro rápido, e era uma Ferrari.

Aviões pequenos, até mesmo os mais simples, deixam o carro comendo poeira. O meu velho Cessna, mesmo voando a baixa velocidade para conservar o horrivelmente caro Avgas, voará a 240 km/h. São constantes 240 km/h em uma série de convenientes linhas retas, sem parar até chegar a hora de aterrissar. Se você quiser competir, posso acelerar até 280 km/h. Até mais, mané.

Carros levam a melhor em distâncias curtas e tem a vantagem de seguirem de um ponto a outro, mas mesmo aqui, as coisas não melhoram. Para viagens bem curtas, uma boa bicicleta já a postos ao lado do portão da garagem ganha fácil. E ganharei de qualquer supercarro numa corrida às 8 da manhã através de uma grande cidade com minha moto Honda de 90 cilindradas.

Quatro horas para dirigir até Devon? Isto é a prova de que a velocidade dos carros, medida através da única maneira confiável que não seja física quântica – distância dividida pelo tempo – é medíocre. Não gasto quatro horas ininterruptas em nada na minha vida. Mesmo quatro horas no pub é um exagero.

Então: já que os carros não chegam a lugar algum rapidamente, podemos recalibrar nossas noções sobre performance e começar a pensar em termos de diversão, ao invés de eficácia.

A não ser que você seja alemão, podemos esquecer velocidades máximas absurdas, porque elas não estão ao nosso alcance. Velocidade, de qualquer maneira, é relativa, apesar da polícia não engolir essa, e não é algo tão sensacional.

Então, agora que não precisamos vangloriar-nos sobre velocidades altíssimas no pub, os supercarros podem ter motores muito menores. Não precisamos de tanta potência para superar o aumento exponencial do arrasto aerodinâmico quanto maior for a velocidade. Esqueça as rodovias; são apenas correias transportadoras onde o motor faz muito barulho sem fazer nada fora do comum.

O que torna os carros incríveis é a aceleração, e o local onde os carros são divertidos de dirigir são em sinuosas estradas secundárias, com curvas cegas e subidas e descidas, e os lerdos tratores; onde você sempre precisa desacelerar para ver se está tudo limpo, e então pisar fundo de novo. Já que vamos perder tempo de qualquer maneira, melhor seguirmos pela rota cênica e nos divertirmos um pouco.

Então, o que queremos é algo no meio-termo. Um carro que acelera forte de 48 a 96 km/h é muito divertido. Mas quando digo “rápido”, quero dizer rápido mesmo, como uma moto esportiva. Isto me faz lembrar das conversas que tive com o professor Gordon Murray sobre peso baixo.

Este é um caminho bem trilhado. Reduzir o peso melhora a aceleração e a frenagem, e torna o carro mais ágil nas curvas sem precisar de aderência extra, etc., etc.. Mas podemos ir além. Se nos esforçarmos para conseguir o menor peso possível e, ao mesmo tempo, aceitar que velocidades altíssimas são irrelevantes, teremos um motor menor mas mais esperto, e, o mais importante, um supercarro menor.

O motor pode ser algo como os 4-cilindros das motos japonesas: forte e ágil, muito dócil, com uma faixa de giros bem ampla e aliado a um câmbio sequencial superrápido. Teria força o bastante para passear calmamente pela cidade, mas, assim que pisar numa estrada secundária, viraria um outro motor na parte superior do conta-giros, onde a fúria estonteante da combustão e um som de escapamento mais encorpado aumentariam a sensação de performance.

Espero que o professor esteja trabalhando nisto, e suspeito que esteja. Imagino algo do tamanho do MX-5 original, mas pesando a metade do peso, com um motor com cerca de 1.2 litro que gira a mais de 10 mil RPM e produz algo como 160 cavalos. Um minúsculo carro exótico que seria excitante de dirigir onde algo assim deveria ser bom – a velha rodovia A40 – e onde supercarros não são assim porque eles são LARGOS DEMAIS.

Eu adoro o Lamborghini Aventador, mas, juro por Deus, eu não entendo porque ele é tão enorme. A Ariel está seguindo pelo caminho certo com o Atom, mas eu gostaria que tivesse mais metal, por favor.

Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 20/07/12, em James May, TopGear.com e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. joao alberto

    ele dizer que os carros não são rápidos, mentira, coloca um uno manco e qualquer mostro de 8 boca junto alinhados em linha reta, mas nas estradas os carros não são rápidos devido a má condição da rodovia, muitas curvas e principalmente radares, tira isso tudo que você irá ver a aguá se transformar em vinho.

    • Primeiro você negou, depois consentiu exatamente com o que ele quis dizer no texto.
      Carros não são rápidos, comparados com outros meios de transporte, justamente devido aos fatores externos.

    • Não é bem assim! =D Veja as corridas antigas da BTCC, você tinha Camaros correndo lado a lado contra minis e era uma boa briga… (não que eu esteja defendendo o Uno, que na minha opinião é o pior carro que eu já tive a infelicidade de dirigir!)

  2. concordo em parte, nem sempre a velocidade é a parte mais legal! nem em motor com mais de 6 cilindros, o própio opala , varios carros passam ele de g=final, mais a diversão está em baixa quando te cola no banco ou nos “power silde”!

    esse texto me lembrou o outro que ele fez do panda dele hehe

    []s

  3. a alegria que o carro da não se mede pela quantidade de litros, cavalos ou cilindros. e sim como vc usa a força que ele oferece.
    vou por como exemplo o Ka xr 1.6 ( gosto bastante ), em uma linha reta em comparação com um carro de maior cilindrada e consequentemente maior e mas pesado, não terá a menor graça, agora pegue os dois e coloque em um track day por exemplo ou uma estrada bem sinousa, e explore o potencial total do motor e o baixo peso do carro, vc se sentira um piloto de kart.

  4. Quando comecei a assistir o TOPGEAR, eu gostava muito do JC e não dava muita bola pro May, mas depois de um tempo assistindo, lendo e pensando um pouco mais, o May acho que dentre os 3 é o cara mais sensato e que tem uma visão ótima sobre o que o futuro automobilístico poderia ser.
    Muita gente pode ser e vai ser contra, mas realmente tenho que concordar com o que ele fala e escreve.

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