Jeremy Clarkson e os britânicos

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Meu amigo e colega do Sunday Times, A. A. Gill, recentemente descreveu a diferença entre a comédia americana e a britânica. Eles adoram rir sobre pessoas que eles gostam – o Joey de Friends, por exemplo – enquanto nós britânicos adoramos rir de pessoas que não gostamos. Os idiotas de 2012, Basil Fawlty, David Brent e por aí vai.

Isso pode ser contestado já que a América é a morada de 312 milhões de bocós que não entendem ironia. E de nós sermos vigorosamente cínicos. Mas eu suspeito que a real razão seja por eles serem bastante simpáticos. E nós não…

Há um tempo atrás meu cachorro morreu e, como um experimento, eu anunciei o fato no Twitter. Então, todos devem saber que quando o animalzinho de estimação de uma família falece, a família em questão deve estar chateada. Aí você espera um pouco de simpatia. E, na América, é isso que você recebe.

Mas não na Grã-Bretanha. Momentos após a postagem do meu Tweet, um cara chamado Ryan Paisey perguntou: “Ele fede muito agora?” Adam Farrow disse que a notícia era “meio engraçada”. Phil May quis saber se a culpa era do James May, e Tom Green simplesmente disse: “Legal”. E tudo isso em menos do que o Twitter chama de zero segundo.

Cinco minutos já se passaram, e continua-se com a infindável tirada de sarro. O que confirma minha teoria. A Grã-Bretanha é uma nação de 62 milhões de completos e totais filhos da @%#$. Nós somos o país que inventou o campo de concentração e a escravidão internacional.

Tortura em praça pública: fomos nós também. E quem foi que mandou os Russos Brancos de volta para então serem massacrados pelo Stalin? Pois é. Nós. Meu melhor amigo do Colégio Preparatório passava todo o tempo livre dele forçando tudo que ele encontrava no jardim dentro do triturador da cozinha da mãe dele. Ele era britânico. E eu aposto, se você verificou, que deve ter descoberto que, além de tudo isso, o bullying também foi inventado aqui.

Existem ainda mais evidências de nossa inerente estupidez que podem ser encontradas nas ruas. Semana passada, eu estava testando a magnífica Ferrari 458 Spider, e eu não poderia ser mais ofendido mesmo se estivesse dando uma volta num shopping center com um uniforme nazista da SS e com um chapéu da Ku Klux Klan tentando roubar uma criança. A mensagem era clara: “Quem quer que seja dentro desse carro só ficou rico explorando os trabalhadores e, como resultado, nós não deixaremos ele entrar na rodovia.”

De novo, devemos traçar paralelos com os EUA. Por lá, quando um mendigo vê alguém dirigindo algo como uma Ferrari ele dirá: “Um dia, ainda vou ter uma dessas.” Aqui, o que ele diria seria: “Um dia, vou tirar ele dessa Ferrari”.

Isso foi comprovado por outro experimento que eu fiz na semana passada. Eu estava na faixa rápida da M40 na Ferrari, chegando perto de um Toyota qualquer. Se eu estivesse em um Ford ou Vauxhall qualquer, o motorista sairia do caminho na primeira chance possível. Mas, como eu estava na Ferrari, ele ficou ali – e eu medi – por 69 quilômetros.

Claro, é possível que o motorista tenha recentemente chegado de algum país onde não se tenha tradução direta para “disciplina rodoviária”, mas é muito, muito mais provável que ele era um britânico cruel e maluco que estava demonstrando à sua esposa gorda, usando calçolas e inclinada ao Partido Social-Democrata, que o exibido na Ferrari não iria chegar em casa mais cedo que ele.

Você vê esse tipo de coisa quando pára em um posto de combustível num supercarro. Em qualquer outro lugar do mundo ,pessoas iriam se agrupar, cheias de entusiasmo. Iriam querer ver, sentar no carro, saber até quanto ele chega.

Mas não aqui. Todo mundo que passasse por perto iria dizer a mesma coisa: “Aposto que você não consegue fazer muitos quilômetros por litro nessa coisa”. Parece que o britânico médio está programado desde o nascer para achar algo muito caro tão irritante que ele apelará e encontrar o único dado nas cartas do Super Trunfo que a sua Toyota Picnic é melhor: quilômetros por litro. “Sim, você tem razão”, eu normalmente respondo, e apontando para o calhambeque enferrujado dele: “Mas eu aposto que você não consegue transar muito por causa disso”.

Recentemente, a linda e imensamente talentosa cantora e compositora Amy Macdonald apareceu no BBC Breakfast e anunciou que ela tinha comprado uma Ferrari 458. E perguntaram duas coisas a ela. Indignadamente: “Quanto ela custou?” E zombando: “Onde nesse país você pode dirigir um carro como esse?”. Nada além de reclamações.

As pessoas realmente acham que se a adorável srta. Macdonald não tivesse uma Ferrari, as suas vidas seriam melhores. É um estado de espírito que nunca compreendi. Mas é muito real. E é defendido pelo Daily Mail, onde declara guerra a qualquer um que seja muito bonito, muito rico ou muito magro. Eles realmente acreditam que se Kate Moss desenvolvesse elefantíase no rosto, a vida do Sr. Prisão-de-Ventre de Pontefract iria melhorar muito.

Aparentemente, nós odiamos a Rússia comunista; intimamente, é o que 95% do país quer. Banqueiros. Agentes de Estado. Políticos. Jornalistas. Qualquer um vestido com um terno é basicamente do mal e deve, depois de ser demitido, ir direto para a prisão. Alguém com um casaco vagabundo? São basicamente bondosos e devem ganhar imediatamente uma TV de plasma.

E é isso que você deve ter em mente antes de comprar um supercarro nesse país. As pessoas vão cuspir nele, e, quando você não estiver olhando, vão enchê-lo com urina. Vão arranhar a pintura, e irão bloquear seu caminho de propósito. Eles não vão deixá-lo entrar numa rodovia, vão xingá-lo e, em festas, as mulheres vão dizer – isto também aconteceu enquanto estava com a 458 Spider – que você deve ter um pênis minúsculo.

Aí eles vão filmá-lo enquanto dirige por aí e colocar os frutos de seu trabalho no YouTube. Guardas de trânsito vão selecioná-lo, junto com a polícia, para uma atenção especial. Você pode gerar incríveis números de força G nas curvas, mas assim que você sair da curva numa nevasca de catarro, você será algemado e passará o resto de seus dias na prisão, sem se atrever a tentar pegar o sabonete.

Eu gosto de pensar que aqui é aonde o TopGear.com é mais útil que outras fontes de informação automotiva. As revistas e sites rivais vão te dizer qual a quantidade de limalha de ferro que existe dentro dos amortecedores de uma Ferrari 599 e quantas válvulas foram colocadas no motor de um Pagani Hneurrgh. Mas eles não vão dizer qual supercarro é o melhor se não quiser chegar em casa atolado num mar de cuspe. Nós podemos: é o Aston Martin DBS.

Diga a alguém que você bateu sua Ferrari ou sua Lambo e eles vão rir da sua cara. Aí diga que você bateu seu Aston, e eles ficarão tristes. Uma Fezza acidentada é como um Airbus acidentado. Um Aston acidentado é como um Concorde abatido. Isso dói. Astons destroem nosso Daily Mail interior. Nós gostamos deles. Nós gostamos das pessoas que os dirigem.

Talvez por que eles são cinza. Talvez porque o motor fica na frente, que é o lugar onde ele pertence; eu não sei. Mas eu sei disto: um Aston é o único carro caro e rápido que os miseráveis e cruéis britânicos filhos da @%#$ realmente gostam. Eu sei que não é muito engraçado. Mas, como eu disse anteriormente, meu cachorro morreu faz pouco.

Tradução: Paulo Lange

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Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 07/10/12, em Jeremy Clarkson, Top Gear UK e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. Excelente artigo! Obrigado pela tradução!

  2. jezza e seus textos épicos! e no minimo causou polêmica lá! pra varia né hauhauh

  3. Esse texto deu um bafafa tremendo na época por lá… Típico rs…

  4. Bruno Zen Zortéa

    da pra colocarem audio mais alto no episódio de top gear q ta vindo ?

  5. “mas assim que você sair da curva numa nevasca de catarro”
    Eu traduzi e continuo rindo disso.

    Pense numa multidão esperando numa curva qualquer pra cuspir no primeiro supercarro que passar. É, no mínimo, hilário!

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