Jeremy Clarkson no último vôo do Concorde

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Neste dia, há nove anos, os vôos transatlânticos supersônicos deixaram de existir. E Jeremy estava lá…

Às 7:51 da manhã, horário local, o capitão Mike Bannister empurrou os manetes para frente, acionou os queimadores e tornei-me uma das últimas 100 pessoas ainda vivas hoje a irem além da barreira do som sem ter um pára-quedas à mão.

Três horas depois, quando nos aproximávamos da costa do País de Gales, desaceleramos para tranquilos 800 km/h. E pronto. O transporte supersônico para quem estivesse disposto a pagar havia terminado.

A esta altura, você terá lido muitos textos emocionados em todos os jornais sobre a morte prematura do Concorde. E temo que tenha feito exatamente a mesma coisa, dizendo que essa decisão era um enorme salto para trás para a Humanidade.

Todos pareciam pensar da mesma forma; inclusive o Guardian e o Independent. E tudo foi lindamente resumido pela bailarina Darcy Bussell. Ela perguntou: “Por que ele não pode continuar mesmo sem gerar lucros? O Ballet Nacional da Inglaterra faz isso.”

Naquela manhã, no aeroporto JFK de Nova Iorque, mesmo os funcionários que colocam malas nos vôos da Delta para Iowa pararam para observar. Por todo o aeroporto, todos os veículos de emergência acionaram suas luzes. E com um rugido, o último grande lembrete que a Grã-Bretanha era uma força a ser reconhecida havia sumido.

Em Heathrow, milhares apareceram para ver o vôo de Nova Iorque, e outros dois, pousarem um após o outro. Todas os canais de televisão estavam trasmitindo o evento ao vivo. E nenhuma mencionou que, no dia anterior, no último vôo internacional do Concorde, quatro dos passageiros pagantes, que rehipotecaram suas casas e venderam todos os seus móveis para estarem lá, haviam esquecido seus passaportes.

Mesmo esta história trágica (mas engraçada pra burro) de pessoas voltando para suas casas vazias foi obscurecida pela morte de um ícone.

Mas espera um pouco. Por que todos nós estávamos tão tristes? Quero dizer, não sinto pena dos executivos que o utilizava como se fosse um ônibus. Foram suas mesquinhezas que o matou. Não sinto pena das pessoas que realizavam suas revisões, ou trabalhavam na cabine. Eles acharão outros empregos. E nem sinto pena da British Airways.

Não, eu sinto pena mesmo é da máquina em si. Por 27 anos, ele voou de um lado ao outro do Atlântico, sem cometer um único erro. E então, um dia, ninguém apareceu no seu hangar para limpar seus carpetes, ou abastecer seus tanques de combustível. Um dia, por nenhuma razão que pudesse ser explicada, seus proprietários decidiram que não o queriam mais.

Não quero soar feito um coração mole, mas pense como o seu cão ficaria se você fizesse isso: você esfrega sua barriga e enche sua tigela de comida por 27 anos e então, um dia, você o deixa num canil e não olha para trás.

O Concorde não sabe o que é lucro e prejuízo. Não faz idéia do que é risco ou certificados de aeronavegabilidade, e com certeza não compreenderia a afirmação absurda de Richard Branson de que ele poderia mantê-lo voando. Ele é uma máquina. Ele só sabe como voar absurdamente rápido através do Atlântico.

No entanto, algumas máquinas viram mais do que uma coleção de fios e vidro e metal. Eles criam uma personalidade e é isto que torna suas mortes tão difíceis de assimilar.

Uma vez eu visitei a base aérea de Davis-Monthan, no Arizona. Estávamos lá para filmar uma guilhotina gigante cortar bombardeiros B-52 em pequenos pedaços e, vou te dizer, foi de cortar o coração. Era uma máquina que foi feita para causar mortes e destruição. Mas ele nunca soube disso. Ele foi criado para fazer um trabalho, e ele fez esse trabalho sem nunca reclamar. Então ele deve ter imaginado: “Por que estão cortando meus braços fora?”

O Titanic foi outra máquina que aquecia o seu coração, assim como minha cafeteira. Também gosto muito dos meus fones de ouvido Bose com redução de ruídos. Mas você poderia destruir este maldito computador com um martelo, e eu agradeceria. O mesmo vale para a minha televisão e para o meu celular. Mas, estranhamente, isso não vale para o meu barômetro.

Vemos o mesmo tipo de coisa no mundo dos carros. Por que eu acho que um Renault Clio tem uma alma quando não tenho dúvida que um Toyota Corolla não tem? E por que ficaria entristecido ao ver um Rover SD1 ser esmagado, mas completamente indiferente com a morte do seu sucessor, o 820?

Na 3º temporada do Top Gear, nós compramos uma picape Toyota que havia percorrido mais de 300 mil km. 16 deles provavelmente foram percorridos no asfalto. Após apenas alguns metros, eu sabia que este carro tinha alguma alma, era o trabalhador fidedigno que tem erguido paredes por 40 anos, e comecei a me odiar por todo o sofrimento pelo qual eu a faria passar.

Nos dois dias seguintes, eu o joguei contra árvores, no mar e contra Bristol, joguei um trailer nele e ateei fogo nele. E após cada tormento, ele voltava a respirar com o ronco a diesel de um trabalhador. E ele me olhava com metade do Canal de Bristol em seus olhos, perguntando: “Por que você está fazendo isso comigo?”

Uma vez, eu enfiei um Volvo 340 em uma máquina trituradora e não senti nada enquanto as mandíbulas de metal o fazia em pedacinhos, mas toda vez que vejo nossa Toyota chamuscada e moribunda no estúdio, sinto uma pequena vontade de chorar. Estranho.

Não confunda isto com uma ligação emocional que você poderá criar pelo seu carro. Após alguns acidentes de percurso, e algumas batidas no pára-choque traseiro, é fácil criar uma ligação. Mas não estou falando sobre sua relação com a máquina. Estou falando sobre a relação da máquina com você.

Quando tinha uma Ferrari, eu achava que ela estava triste por ficar na garagem durante todo o inverno, mas eu posso deixar minha Mercedes no frio por semanas a fio e nem ligar para seus sentimentos. Duvido que ela tenha sentimentos.

Já a Lotus da minha esposa consegue parecer deprimido quando ele não é dirigido por um tempo. Às vezes, e não estou brincando, fico tentado a cobri-lo com um cobertor.

Mas nenhum carro consegue fazer-me sentir tanta pena como o Concorde. Da próxima vez que eu passar por Heathrow, nesta época de benevolência, acho que vou comprar uma tigela de sopa para ele.

Falando nisso, divirtam-se e obrigado por serem tarados por carros.

Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 24/10/12, em Jeremy Clarkson, Matérias traduzidas, News, TopGear.com e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 9 Comentários.

  1. Muito bom texto.

  2. germaniobr

    Excelente…

    Quem não sente algo passional por uma coisa que não respira?
    Eu sentia isso pela minha Virago 535 e que infelizmente teve de partir, pelos meus brinquedos de infância que guardo até hoje, e pela minha velha bike Giat, com seus quase 15 anos de uso e que mesmo sabendo que ela já deu tudo o que tinha pra dar, não consigo substituí-la.

    É engraçado como criamos vínculos com objetos inanimados, e muitas vezes mais fortes do que com as pessoas que nos rodeiam. Eu gosto mais do meu Xbox do que da minha chefe, por exemplo.

    Só quem tem esse tipo de vínculo, essa paixão que é tão bem demonstrada por quem ama carros, pode compreender o que o Jeremy quis dizer neste texto. E já que ele nos agradeceu, o mínimo que posso fazer é continuar a ser tarado por carros.

  3. nuno gomes

    este texto e lindo

  4. É engraçado e emocionante de dar nó na garganta ler esse texto exatamente no dia que desisti de vender meu carro para comprar outro, não é todo carro que roda por 18 anos e 260.000Km (peguei ele com 70.000 faz 8 anos) sem dar dor de cabeça, me acompanhou por altos e baixos da minha vida e ainda hoje roda 95Km todo dia para me levar ao trabalho e para passeios no fim de semana, acho que agora é hora de comprar outro, mas ele vai ter um espaço privilegiado na garagem e será trazido à sua perfeita forma para passeios nos fins de semana e ter a aposentadoria que merece. Tenho até uns videozinhos dele para quem quiser ver.
    Abraços aos petrolheads de plantão.
    http://www.youtube.com/user/DIZAZZO/videos?view=0

    • Renato Ferreira

      Sei exatamente o que é isso e o que voce sente em relação ao seu Tipo, justo um carro que 99,5% dos brasileiros odeiam (inclusive eu) mas todos criamos um certo relacionamento com coisas inanimadas.
      Eu, por exemplo, tenho atualmente um Toyota Corolla 2009 automático com tudo que se tem direito. Uso ele diariamente para dirigir 97 quilômetros entre Teresópolis e Rio de Janeiro (uma média de 200km por dia somando desvios). É um ótimo carro e não tenho nada a reclamar mas ainda tenho na minha garagem meu Fiat Uno 1.0 EP 1996, meu primeiro carro.
      Este carrinho feinho e preguiçoso esteve comigo em todos os momentos importantes da minha vida, da base ao auge. Mesmo quando quebrava no meio da estrada e me deixava na mão (que foram exatamente 3 vezes em quase 20 anos de existência e duas vezes por negligência minha) era uma bênção! Parece que ele tem vida, que me entende e concorda com o que faço.
      Carregou literalmente a minha empresa e minha casa nas costas! Era saco de cimento, tijolo, água em barril, eletrônicos, areia ensacada… Acho que nunca respeitei a capacidade máxima de 600 quilos que a Fiat recomendava. Era estrada de barro, pedra, esburacada, viagens longas diárias… E ele sempre comigo.
      Cheguei a tentar vender mas no dia que o primeiro interessado veio ver o carro (já com 12 anos de uso e 150 mil rodados) eu disse que não iria mais vender pois ele representava tudo o que vivi até hoje dos 18 anos até agora. Não lavo o meu Corolla faz quase 2 meses mas todo domingo dou banho de cera e silicone na Uno.
      Como o próprio Jeremy Clarckson disse, o Corolla não tem uma alma. Mas meu Fiat Uno (Como o seu Tipo e os xodós de todo brasileiro)tem sim uma alma e sou mais fiel a ele do que a minha própria esposa!
      Ela sabe o que acontecerá se ela pedir pra escolher entre ela ou o Uno…

  5. Sério, esse texto quase me fez chorar.

  6. tretas, qual e o frango que chora so porque estao a dizer tretas que o jeremy estava no ultimo voo e que esse aviao acabou de existir. BALELAS

  7. a menos que fosse o bobi…

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