Top Gear testa o DeltaWing!

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Vamos começar com a grande questão: Como é dirigir o DeltaWing?
Bem, ele não é o que você espera. E isso é uma ótima coisa. Tudo o que você sabe sobre carros em forma triangular diz-lhe que eles devem ser terrivelmente instáveis e, com aquela frente estreita, bem propensos a saídas de frente. Ele deve, portanto, ter a dirigibilidade de um Reliant Robin. Mas o DeltaWing não é nada instável, nem falta aderência na dianteira. A física por trás disso é simultaneamente simples mas difícil para nós compreendermos. Basicamente (bem basicamente), a aderência dos pneus é relacionada ao peso, e como a dianteira quase não tem peso, ela precisa de bem menos aderência comparativamente. Ben Bowlby, o homem que idealizou o DeltaWing, provou isso ao levantar o seu nariz.

Ele fez o quê?
Ergueu a dianteira do carro do chão. Sozinho. Mas a dianteira só representa 28% dos menos de 500kg de peso total do DeltaWing, então os pneus dianteiros podem ser tão estreitos quanto aqueles colocados num 2CV velho. Literalmente. Na verdade, os estepes que eles usam pra movimentar o DeltaWing pelos paddocks são pneus de um 2CV velho.

Mas isso é piração, não é?
Não, é física, e Ben Bowlby é um cara bem inteligente. É melhor simplesmente aceitar que isso tudo funciona e deixar para lá. Mas primeiro, dado que você sabe que a dianteira do carro não lida com tanto peso, eu queria ver você adivinhar de onde vêm os amortecedores dianteiros desse carro.

Hmm, de um carro de rua comum? Que tal um Nissan Micra?
Não, vêm de uma Mountain Bike. Como eu disse, é melhor não pensar sobre como ele funciona.

Mas ele não pode ser tão preciso e aderente pelas curvas em velocidades de corrida?
Errado de novo. Existe uma monstruosa quantidade de pegada e agilidade pelas curvas, e no circuito de Road Atlanta o DeltaWing cravou mais de 4G em algumas curvas. E tudo isso sem um aerofólio sequer. Além de dizer isso, é válido também pontuar que ele tem uma significativa quantidade de aerodinâmica no assoalho…

OK, então ele é fácil de dirigir?
É só pegar e sair. Como qualquer carro de corrida existe uma infindável lista de botões e interruptores, o volante é completamente desconcertante, você se senta em um banco concha com suas pernas bem mais altas que o seu traseiro e fica encurralado pelo cockpit alto e pelo par de espelhos retrovisores (que, aliás, aumentam em seis por cento o arrasto total do carro). Mas assim que você está andando, você se esquece de tudo isso e sequer precisa puxar a borboleta pra subir as marchas (assim que o carro bate nas 7.300 RPM ele troca automaticamente). Claro que chegar até esse ponto requer coragem. O DeltaWing, com 300cv carregando menos de meia tonelada, é um carro bem rápido. Especialmente em Road Atlanta, que é um circuito para escolados.

O que você quer dizer com isso?
Eu quero dizer que a pista é bem mais assustadora que o carro em si. Muitas curvas são cegas e tem que ser tomadas na confiança, existe uma grande variação de elevação na pista e significativos momentos onde se perde contato com o solo. Se dizer isto faz parece que falo de Nürburgring, você não vai estar muito longe. Você só vai ser rápido aqui com um carro amigável e, sabendo disso, eu estava apto pra seguir em frente e ficar confortável com somente um par de voltas, sem nunca ter dirigido um metro sequer naquele lugar antes, e isso já diz tudo.

Então você não teve que se preocupar muito?
Você precisa lembrar que a traseira é bem mais larga que a dianteira, então você tem que manter as rodas da frente um meio metro longe das zebras, mas como você está tão baixo no carro e não consegue realmente ver o nariz tipo dardo, você tende a não pensar muito na física e se foca em somente dirigi-lo. Técnica é muito importante. Você dirige o carro de modo bem conservador: freia em linha reta, vira bem rápido e imediatamente já volta pro acelerador. É a traseira que faz todo o trabalho aqui, então você precisa usá-la. Use a tração, maximize a aderência dos pneus. É por isso que os caras que correm com ele acham que ele é rápido em lugares onde os outros não são. Porque ele se comporta diferente.

Diferente como?
Bem, carros com muito downforce ativo podem frear depois, pertinho da tangente, uma técnica chamada tail braking. O DeltaWing é lento na entrada das curvas, mas veloz nas saída delas. E pelas retas ele é bem mais rápido. Carros com grandes aerofólios geram mais e mais downforce quanto mais velocidade têm, o que realmente prejudica a aceleração. O DeltaWing simplesmente continua seguindo em frente. Ele tem uma área frontal menor e seu formato desloca o ar de modo mais gradual.

Mesmo com meros 300cv vindos de um 1.6l turbo (motor de parentesco distante ao do Nissan Juke), ele cravou 309 km/h em Le Mans. Eu não tenho idéia de qual era a velocidade em que eu andava na reta oposta de Road Atlanta, eu ainda não tive oportunidade olhar a telemetria, mas o DeltaWing estava tão seguro e estável que grandes velocidades aqui são menos assustadoras do que em qualquer outro carro de corrida que já pilotei. Ele não balança ou chacoalha ou sacode. Ele é absolutamente sem problemas.

Isso significa que ele é um pouquinho chato pra pilotar?
Com certeza não. Ele simplesmente prossegue limpo e natural. É ridiculamente divertido de guiar, não só pelo jeito que a aceleração nunca te abandona ao se jogar pelas curvas – não existe um turbo lag perceptível, é só uma ansiedade intoxicante pra chegar à próxima curva o quanto antes. E quando você chega lá, a velocidade se dispersa tão facilmente, e aí a dianteira se encaminha de modo tão acurado, é como se não existisse inércia. Sendo que, comparado a outros carros de pista, não existe mesmo. A direção é adorável também. Você sabe exatamente onde está por causa dos estreitos pneus dianteiros que são tão facilmente manobráveis que não há necessidade de assistência hidráulica. Ele nunca te transmite nervosismo, ele só parece lindamente balanceado e, devido ao formato dele, é exatamente o oposto do que você imaginaria. Eu realmente não esperava isso antes de dirigi-lo. E pra ser honesto, eu ainda estou de queixo caído enquanto estou sentado escrevendo isso aqui.

Então, qual o próximo desafio do DeltaWing?
Aí está o impasse, porque no momento ainda não existem planos pra ele. Talvez nunca mais corra de novo. Isso seria um baita desapontamento, porque eu até argumentei que esse é um dos mais radicais e excitantes carros de corrida desde a época de Colin Chapman, dos Tyrrells de seis rodas e dos Brabham Fan Cars. Ele terminou em sexto no geral em Road Atlanta, três dias atrás, durante a corrida de 10 horas da Petit Le Mans, e isso apesar de ter batido em um dos dias de testes.

Sendo o Advogado do Diabo aqui, isso não prova que o carro tem problemas de estabilidade?
Não, eu não acho isso. Ele foi testado em túneis de vento não apenas virado de frente, mas também de lado e até de traseira. E isso a 290 km/h. Ele tem flaps especiais na traseira que impedem o fluxo de ar caso haja uma rodada em altas velocidades, assim prevenindo o ar de fluir por baixo do carro e fazê-lo decolar. Porém, eu vou te dizer de novo, Ben Bowlby é um cara muito mais inteligente que eu, e todas essas explicações foram muito detalhadas e bem críveis. Mas também são bastante complicadas…

OK, então voltando ao futuro desse carro.
Ele não vai correr em Le Mans no ano que vem, os organizadores da corrida já deixaram isso bem claro. Os caras por trás do DeltaWing adorariam ver um novo regulamento radical, um que estabelecesse certos parâmetros, algo como 500kg e 300cv, talvez com uma restrição de combustível, e que o resto fosse todo fruto da criatividade dos designers e engenheiros. Isso, entretanto, vai levar um longo tempo pra se tornar realidade, mas não seria um espetáculo brilhante e cativante?

Certamente seria, porque as pessoas amam esse caro, não amam?
Foi imensamente bem recebido em todo lugar que esteve, e para alguns fãs é exclusivamente devido ao fato de se parecer com o Batmóvel, mas pra outros o fato é que ele é novo, é diferente, é radical e, apesar de tudo, ele funciona, fazendo dele um carro de corrida que vale realmente à pena ser celebrado.

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Texto: Ollie Marriage
Fotografia: Rowan Horncastle
Tradução: Paulo Lange Neto

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Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 25/10/12, em Matérias traduzidas, News, TopGear.com e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Eu quero hoje um campeonato só de Deltas Wing, eu veria com certeza e ainda pagaria por isso!

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