Michael Schumacher, o piloto de motos

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Michael Schumacher parece preocupado. Ele está de pé no pit-lane do circuito de Paul Ricard, junto de John McGuinness (que venceu o Tourist Trophy 19 vezes), Randy Mamola (o maioral da categoria 500cc), o jovem Pol Espargaro (Moto2) e, estranhamente, Keith Flint da banda Prodigy.

Isto não é um filme em live-action do desenho Esquadrão Marte. Na verdade, é o que Schumacher chama de aposentadoria; convidar alguns amigos do mundo das duas rodas para bater um papo, fazer algumas “wheelies” e ter um track-day para eles mesmos, longe de de curiosos.

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Ele estava alegre há alguns instantes, chegando casualmente, sem a bazófia do paddock da F1, sorrindo e saudando seus camaradas de duas rodas, parecendo que a aposentadoria está lhe fazendo bem. Mas hoje está fazendo frio. Está tão frio que nádegas contraem-se involuntariamente. Pol é só sorriso e solta um: “Wowweeee! Parece que andei sobre gelo!” Os olhos do Michael arregalam-se.

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Depois que o Schumi pendurou suas luvas pela segunda vez neste ano, o mais bem-sucedido piloto de Fórmula 1 da história não comprou uma placa de “Fui Pescar”, pendurou-a na porta e passou a costurar frases sobre aposentadoria em almofadas. Pelo contrário. O fato de eu estar de pé no pit-lane de Paul Ricard e cercado por um pequeno grupo de motociclistas famosos mostra que o Schumacher não tem intenção de desaceleraro ritmo de sua vida. A conversa é totalmente sobre ajustes e chassis. E todos só sorriem. Até que Randy diz: “Está frio lá fora, é preciso gerar pressão para conseguir feedback e aquecer os pneus, e está difícil de fazer isso hoje”, explica o americano enquanto faz um gesto com a mão como se estivesse acariciando um labrador invisível. Eu rapidamente percebo que este é o sinal internacional entre os motociclistas para “pegar leve”.

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Não zombe da preocupação do Michael. Andar de moto não é algo relativamente comum para ele. Ele andou um pouco em Harleys quando ele quase tinha trinta e tantos anos (hoje ele tem 43), então ele foi convidado a pilotar uma Ducati da MotoGP em Mugello (enquanto ele ainda pilotava pela Ferrari em 2005). “Eu pensei por que não? Não custava nada tentar”, ele diz. “Foi muito divertido. Eu gostei mas aquilo ainda não despertou meu interesse em pilotar motos em pistas de corridas”. Ele acabou fazendo um tempo 20 segundos mais lento que o tempo mais rápido de Valentino Rossi no circuito italiano. O que parece muita coisa para um homem acostumado a estar a apenas décimos de segundos de qualquer outra pessoa, mas considerando que ele nunca havia pilotado uma moto numa pista anteriormente, não é algo merecedor de zoação. O que “despertou o interesse dele”, no entanto, foi um passeio numa Harley com amigos pela França. “Vimos uma pista de corrida com alguns caras andando nela. O dono da pista veio até mim e disse: ‘Gostaria de andar nela? Temos algumas motos de demonstração’. Então, vestindo jaquetas de couro, nós subimos nas motos e demos algumas voltas. Este foi o momento”.

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Era de se imaginar que haveria alguma ligação intrínseca entre pilotar motos rápida e dirigir carros rápidos. Mas Michael acha que são duas coisas completamente diferentes.

“É uma sensação muito diferente de dirigir um carro. Primeiro tem a sensação em si, que era novidade para mim. Não tem nada a ver com o que fazemos em carros de corrida. Neles, você não raspa seus joelhos e cotovelos no asfalto. A maneira como uma moto anda, a sensação de limite, tudo é como um novo mundo. Apesar de eu ter muita experiência em quatro rodas, isso é muito diferente e foi isso que me chamou a atenção”.

E ele deu adeus à uma incrível experiência em quatro rodas. Estatisticamente ele é o melhor piloto de Fórmula 1 de todos. Os seus recordes incluem: o maior número de campeonatos vencidos, maior número de vitórias, voltas rápidas, pole-positions, pontos e corridas ganhas em uma única temporada.

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Levando-se em conta que seu “trabalho” era acelerar pela Eau Rouge a 290 km/h e sentir 5G de força lateral por 8 segundos na Curva 8 do circuito de Istambul, não ficamos surpresos ao vê-lo de volta às pistas logo depois da sua “primeira” aposentadoria da F1, desta vez sobre duas rodas. Ele entrou na categoria principal da Alemanha, o campeonato IDM de Superbikes, onde ele pilotou uma Honda CBR1000RR. E sendo o Schumi, ele tinha em mente como seria sua performance.

“Eu sempre tinha em mente que nunca seria o melhor”, ele admite calmamente. “Mas o mundo das motos ficaram muito impressionados [com sua performance]. Como nunca havia feito isso antes, não precisaria começar a sonhar em fazer os tempos mais rápidos – seria impossível. Eu teria de começar começar desde cedo para chegar ao topo”.

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Em seu primeiro ano Michael andou dois segundos atrás dos melhores pilotos da IDM. Michael acredita que há uma diferença de 10% entre pilotar motos de competição e carros de corrida em relação à sentir o feedback, as habilidades necessárias e a dificuldade. Esta diferença de 10% aparece nos tempos. Veja a ocasião quando a estrela da MotoGP Valentino Rossi testou uma Ferrari de Fórmula 1 no circuito de Catalunha em 2008. Ele ficou a apenas dois décimos de segundos acima do tempo mais rápido do circuito – marcado por Kimi Raikkonen. Michael acredita que estar 10% atrás dos melhores pilotos da IDM é bom, considerando-se suas habilidades.

“Eu estava muit contente, eu podia sentir o pneu traseiro, forçava-o ao limite e me sentia confortável. Meus joelhos tocavam o asfalto, eu inclinava meu corpo do jeito certo, era uma sensação ótima”. E o Michael não gostou apenas da sensação física visceral, também tinha o lado psicológico. “Há algumas similaridades entre carros e motos. Como você se maximiza e desenvolve mentalmente. Você precisa de um novo método para analizar-se de modo que você possa evoluir”. E as motos ofereceram um novo desafio para ele.

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“Quando eu pilotava motos, esta exploração era fascinante porque era algo novo, eu estava aposentado, estava livre. Então eu curti muito isso até o momento que tive meu acidente”.

Ah, sim. O acidente. A grande diferença entre motos e carros e que você não cai dos carros. As leis da Física não mostram pena, mesmo se você tenha conseguido 90 vitórias, 1.354 pontos e sete títulos mundiais na F1. Isto foi demonstrado quando Schumacher beijou o asfalto em Oschersleben, Sachsenring. Mas o acidente que realmente mudou as coisas aconteceu a 215 km/h na Cartagena que o nocauteou, deixou-o com fraturas na base da cabeça, em vértebras do pescoço e em uma costela. Foi um acidente que seu antigo manager, Willi Weber, descreveu como “o acidente mais sério da carreira do Michael”.

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A gravidade do acidente não foi reconhecida de imediato quando ele postou no seu website oficial: “Os exames mostraram nada e só quero dizer que estou bem”. Mas foi bem mais sério. Ele o preveniu que voltasse à F1 em 2009 para ocupar o lugar de Felipe Massa após o acidente chocante do brasileiro durante a classificação do GP da Hungria. “O que eu aprendi disso foi quais eram meus limites e o que faria no futuro”, ele nos diz. “Aconteceu. Foi uma lição para mim e acho que é parte do aprendizado natural pelo qual você passa na vida”. Mas ele não se sentiu desencorajado. Ele subiu de volta em seu cavalo mecânico e continuou andando em pistas de corrida – mesmo durante sua segunda volta à F1 na Mercedes. E é por isso que ele está em Paul Ricard hoje.

“Ninguém está aqui para vencer ninguém”, diz o Schumacher. “Só quero passar um tempo com amigos. Não quero achar aquele décimo de segundo extra, só quero andar rápido, mas sem exagerar. O que eu aprendi foi que, quando não me sentir mais confiante, eu passo a pegar mais leve. Nem quero tentar fazer algo mais extremo já que não há um aviso ou uma sensação de passar do limite. O próximo passo é cair no chão. E de que adianta ficar deitado no chão?”

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Essa mentalidade de “segurança primeiro” permanece durante o dia. “Há uma sensação real de camaradagem entre ele e os outros motociclistas enquanto eles encostam suas mãos nos pneus para ver se eles estão sequer mornos. Michael checa uma Ducati 1199 Panigale levemente modificada e com o libré da equipe Mercedes de F1, certifica-se de que os pneus esteão aquecidos e que seu banco está na posição correta. E não demora muito até ele entrar na pista – com John McGuinness logo atrás – dando empinadas na reta principal.

E isto nos faz perguntar: o que é melhor, fazer a volta perfeita em um carro ou em uma moto?

“É uma sensação diferente”, ele explica com um sorriso. “Não é uma sensação melhor, é algo novo. Ambos têm suas sensações e peculiaridades. Parei de competir profissionalmente porque não queria mais explorar isso mais à fundo. Mas eu ainda gosto de me divertir e ficar com amigos”.

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Quando o tempo muda para a pior, Schumi, John e os rapazes voltam aos pits. No fundo da garagem Randy conta piadas sujas enquanto os outros aquecem as mãos com xícaras de chá e café e comparam marcas nos seus trajes de couro, para verem quem abaixou mais seus joelhos.

É quando John McGuinness olha para nós e diz: “O Michael com certeza sabe andar de moto. Eu não conseguia acompanhá-lo! É como andar com o Poderoso Chefão…”

Texto e fotos: Rowan Horncastle

Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 13/12/12, em Matérias traduzidas, News, TopGear.com e marcado como , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Schumacher:
    – Ride a bike, how hard can it be?

  2. eee vidinha mais ou menos a dele…. nem to com inveja😛

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