Richard Hammond e seu velho VW Scirocco

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Não foi um acidente grave. nenhuma ambulância foi necessária e ninguém teve que aparecer e “ter o controle da situação”. Foi apenas uma batida embaraçosa. Mas levei um baita choque. Isso aconteceu há 16 anos e eu estava sonhando acordado, como sempre, só que desta vez eu tinha um motivo; minha vida inteira estava prestes a mudar e precisava mudar minha cabeça e lembrar de tudo que passei. Após sete anos como um apresentador de rádio, eu joguei a toalha e consegui um trabalho no mundo real. Bom, quase. Eu estava dirigindo da chuvosa Lancashire para virar um assessor de imprensa de uma montadora. Isto significava duas coisas: eu precisaria de um terno e poderia encontrar e puxar o saco de editores de programas de TV sobre carros, e quem sabe um dia entrar para o mundo da TV e virar o que sempre sonhei desde que assistia Top Gear quando criança.

Foi um tiro no escuro, quase certamente não daria certo, meus amigos da rádio estavam desapontados comigo e eu não tinha um terno, mas era minha melhor opção se eu quisesse fazer coisas como comer e viver em algo que não fosse uma kitnet pintada de marrom.

E então, pensando em tudo isso e outras coisas aparecendo em minha pequena cabeça, levei um baita choque quando meu amado Scirocco GTX em preto-carvão parou bem de repente.

Eu acertei o carro à minha frente numa rotatória. Foi uma batida leve e nada mais. Desculpas foram aceitas, trocas de telefones foram feitas e uma dorzinha no coração foi sentida enquanto verificava a frente amassada.

O meu velho Scirocco esteve comigo em várias aventuras… bom, mais ou menos. Ele quebrava muito, mas tinha orgulho dele e observava com carinho sua pintura fosca debaixo de camadas de verniz descascando. Era literalmente o fim da linha para este carro.

Com o novo emprego veio um carro da empresa. Era pequeno e pouco potente, mas era novinho e dificilmente quebraria. Após esta jornada, o velho VW poderia desfrutar de um pequeno momento de fama em um espacinho nas páginas da Auto Trader antes de ser vendido por menos do preço pedido, mas por mais do que ele valia.

A questão é que esta história poderia ter sido bem diferente, ou nem mesmo ter acontecido. O meu Scirocco foi o 3º da minha lista. Eu queria um porque o baterista da minha banda tinha um e imaginei que se ele conseguia carregar sua bateria em algo muito mais maneiro que os Escort e os Golf de praxe, eu com certeza poderia carregar o meu baixo nele.

Após rejeitar o primeiro Scirocco que encontrei (bancos de couro arruinados e um odor no porta-malas que chamaria a atenção da polícia), eu olhei um segundo Scirocco. Era o modelo GT com um motor menor e estava imaculado. O dono tinha todo o histórico detalhado, ele andou pouco menos de um-quarto da distância que um Scirocco normalmente andaria, o interior estava perfeito e a carroceria brilhava com vigor debaixo de sua pintura lustrosa e perfeita. Mas a cor da pintura era um laranja forte e chamativo. O meu enferrujado Opel Manta cinza-prata estava vazando óleo na calçada atrás de mim enquanto via o Scirocco e tentei imaginar como eu me sentiria aparecendo em shows ou na faculdade em um carro laranja.

Não podia fazer isso. EU o recusei e comprei o outro que achei, aquele que bati na rotatória em Surrey. Eu o comprei por causa da cor – um cinza escuro – tinha uma aparência ótima e tinha motor 1.8. Eu o comprei apesar do fato dele claramente ser uma droga e estar a apenas horas da morte. Ele precisava de cuidados constantes, ele me provocava, acabou com a minha conta bancária e me desapontou. Mas eu o amava. E aqui está uma questão interessante. Será que algo inato me fez suportar os pontos fracos do que eu considerava o carro mais glamoroso? Será que eu preferia o caos e o glamour de um carro quebrado mas bonito ao invés da tediosa confiabilidade do outro carro? Se sim, como isso teria me afetado se eu tivesse escolhido o carro laranja? Será que sua confiabilidade, a certeza de que eu poderia planejar uma viagem sem ter receio de que não a completaria teria influenciado a minha mente jovem e ainda em desenvolvimento? Será que eu teria virado um membro respeitável, respeitado e responsável da sociedade, ao invés de um co-apresentador de um programa de TV “ambicioso mas uma droga”?

O fato é que um Scirocco laranja provavelmente seja algo desejável e “retro-cool” agora. Sua personalidade descolada poderia ter penetrado na minha mente artística e me transformado em um designer ou num arquiteto. E é por isso que, quer você ame ou odeie carros (imagino que você os ame, já que está lendo isto), eles são um assunto infinitamente fascinante e controverso. Às vezes nós nos definimos por eles e talvez às vezes eles tenham influência sobre o que somos. E provavelmente não há muitos objetos que tenham o mesmo efeito sobre nós.

Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 13/01/13, em Hammond, Matérias traduzidas, News e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 5 Comentários.

  1. Lord Krauser

    [off]

    olha que eu achei na net:

    James May a 70.000ft !!!

  2. Paulo Freire

    Se fosse nos dias de hoje, o carro poderia ser até cor de rosa, umas horas na funilaria e ele sairia com a cor [fosca] que você quisesse por menos do que custaria uma pintura nova.

  3. parece d+ um santana hatch antigo

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