Jeremy Clarkson e o Lexus LFA

2012-Lexus-LFA-2

Às vezes, meu trabalho é tão estressante que eu quero sentar-me num canto e chorar. Às vezes, não consigo achar espaço no meu jardim para todos os carros que preciso testar na semana. Então, descubro que tenho que ficar em casa numa Sexta-Feira porque alguém deixará o novo Pagani. Deixe-me dar-lhe o exemplo mais recente: nós decidimos filmar uma seleção de carros caros nos desertos do oeste da América. Isto significaria seis dias ensolarados, acelerando por aí no carro de outra pessoa e me exibindo.

Hammond escolheu o novo Dodge Viper. May escolheu o novo Aston Martin Vanquish. E eu ficaria com a Ferrari F12. Mas não teríamos a Ferrari em tempo para as filmagens, então eu tive que pensar em outro. O SLS Black? O Audi R8 GT? Este é o tipo de pesadelo que tenho que enfrentar diariamente.

Eu ainda estava pensando numa solução quando abri a porta superleve do que parecia ser um Toyota Celica. Mas não era um Celica. Era um Lexus LFA de R$1.2 milhão. E, uma hora depois, eu sabia exatamente o que iria dirigir na América. Ele era sensacional.

Este carro levou 5 anos para ser desenvolvido. E então, quando a produção estava prestes a começar, os engenheiros decidiram que seria melhor se a carroceria fosse feita de fibra de carbono, ao invés de alumínio. Qualquer outro conselhor diretor teria mandado-os se ferrarem. Mas os chefões da Toyota disseram: “certo, eis outra banheira cheia de yens”.

Então eles voltaram à mesa de projetos e começaram de novo. E, após mais 4 anos de testes constantes em Nurburgring e ajustes, eles criaram algo realmente espetacular.

Diferente de um Lexus normal que isola os ocupantes de qualquer sensação, o LFA parece como o que ele é: uma máquina. Ele tem um câmbio com uma única embreagem, porque dessa maneira você nota as trocas de marcha. Ele tamborila e uiva. Às vezes, você tem a impressão que está sentado dentro de um dos 10 cilindros. Há muito tempo que eu não dirigia algo tão refinado, tão magnífico, tão detalhado, tão perfeito. Após ter dirigido um LFA, todo o resto parece tão mole quanto um dos casacos do Arsène Wenger.

Mas eu tenho um problema porque, quando chegarmos nos EUA, Chuck Hammond e James Bond dirão que eu escolhi o carro errado, e não duvido que eles me forçarão a jogar Super Trunfo. O Lexus perderá feio. Ele não é tão rápido quanto os carros deles. Ele não acelera com a mesma ferocidade. Não é tão potente quanto eles. E os estratosféricos R$1.2 milhão torna-o de longe o mais caro. Eles insistirão nessa história, porque eles são umas crianças.

Em seguida, eles perguntarão com caras sérias por que ele tem um motor V10, sabendo muito bem que quando o LFA foi concebido, a Toyota estava na Fórmula 1 e, na época, os bólidos usavam motores 10-cilindros. Portanto, ele foi projetado para exibir uma tecnologia que agora está bem ultrapassada.

Tem mais também. Eu argumentei várias vezes no passado que um carro deve mostrar de onde veio. Um Aston tem que parecer britânico. Uma Ferrari tem que parecer italiana. Um Viper tem que parecer gordo. O LFA tem que parecer um produto de um laboratório de ciências. Isto é algo que acomete todos os carros japoneses.

Talvez porque, desde o começo, as montadoras japonesas pensavam principalmente nos mercados estrangeiros. Enquanto a Austin fazia carros especificamente para a Grã-Bretanha e a Citroen especificamente para a França, Toyota e Datsun faziam carros especificamente para todos os países. Talvez seja por isso que os carros japoneses quase sempre parecem anódinos e sem sal.

Dirija um carro japonês, e você sentirá absolutamente nenhuma conexão. É algo que você nem respeita, nem gosta. É uma ferramenta, como uma pá ou um freezer. Não tem personalidade, e personalidade é a diferença entre um carro bom e um carro ótimo. Para mim, personalidade é tudo.

James e Richard mencionarão isto também, enquanto apontam para o LFA. Então dirão que sou uma fraude e que escolhi o LFA apenas porque eles já haviam escolhido os melhores carros.

Terei que ter uma resposta pronta, e acho que tenho uma. Porque, bem de vez em quando, o Japão faz um carro que é bom precisamente porque ele não tem uma alma. A Honda faz isso mais vezes que qualquer outra montadora, notavelmente com o CRX e o NSX. A Nissan fez isso com o GT-R, a Mitsubishi com o Evo, e agora a Lexus fez isso, de certo modo, com o LFA.

Deixe-me falar sobre o painel. Quando você muda os ajustes, o velocímetro, que parece ser real ao invés de eletrônico, move-se para dar espaço para dois mostradores extras e mais informação. Não dá para cansar-se disso.

Então têm os materiais usados para revestir as portas, o painel e o túnel da transmissão. A maioria dos designers automotivos têm um catálogo de duas páginas – uma com couros, outra com fibra de carbono. Mas a Lexus teve aulas de decoração de interiores com Kevin McCloud e encontrou pequenas companhias na Letônia e no Mali que podem cortar e moldar coisas que ninguém nunca havia ouvido falar. É um design e tanto.

Claro, assim como o programa Grand Designs do Channel 4, ele não tem um histórico. Ele destaca-se na paisagem como algo esquisito. É estranho. Mas ele atrai você. Ele o intriga. Talvez após um tempo, você fique cansado dele. Mas acho que demorará um pouco…

E tem o som. Em altas rotações, ele soa como um milhão de fogos de artifícios, amplificados pela mesa de som do AC/DC e disparado na cara de quem você acabou de ultrapassar. Ele crepita. E então, quando você acha que não pode acelerar mais, o crepitar vira um uivo malígno. É hora de puxar a borboleta do câmbio, sentir a pancada e acomodar-se no banco requintado, pronto para começar tudo de novo.

Então você vê uma saliência no asfalto. A superfície da estrada está coberta por todo tipo de irregularidades que ela acumulou ao longo dos anos. Você sente que é melhor frear porque o LFA irá acusar o baque. Mas não precisa, porque a suspensão é tão boa que ele nem encosta na saliência.

Em teoria, o Viper e o Aston detonam o Lexus. Mas suspeito que no mundo real – bem, o quanto ele chega perto de ser “real” em e nos arredores de Las Vegas – ele virará a mesa.

Suspensão dura? Sim. Mas não é ridícula. Ela é dura o suficiente para que você faça a curva seguinte a milhão.

Só consigo imaginar um carro que pode comparar-se a ele. A Ferrari 599 GTO. Ou Kato, se você acompanha o programa atentamente. Obviamente, ela tem muito mais personalidade que o LFA e, como resultado, parece ser muito mais humana. Ela é falível e confusa, e quando chove ela degringola-se toda. É difícil de domar, mas ela é muito recompensadora quando você consegue.

O LFA não desmonstra nenhum desses traços. Ele parece um Exterminador do Futuro. Você fala para ele o que fazer, e ele continuará fazendo isto. Ele simplesmente não irá parar.

Dá para amar uma máquina? Claro que dá. John Connor conseguiu. E eu amo o LFA.

Sobre johnflaherty

Meu nome é Sadao H. Konno, mas sou mais conhecido como "John Flaherty". Por quê? Porque sim, uai! Desde criança, eu gosto de carros, tanto que minha lembrança mais antiga dessa época é de uma capa da antiga Audi Magazine. Nunca fui muito de ler os grandes clássicos da literatura, mas o que me salvou foram as revistas especializadas em carros. Mais precisamente, a QUATRO RODAS, a MOTOR SHOW e, recentemente, a AUTO ESPORTE. Acho que foi em 2009 que descobri o Top Gear, e desde então, virei um grande fã da trupe formada pelo Jezza, Hamster, Capitão Lerdo e Stig. Em 2010, inspirado por uma amiga da faculdade, decidi começar a legendar vídeos do Top Gear e postá-los no YouTube. Infelizmente, minha conta foi bloqueada pela BBC, mas agora, ofereço suporte ao blog Top Gear BR.

Publicado em 05/12/12, em Jeremy Clarkson, Matérias traduzidas, News e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. fodástico , tinha que ser ele.

    ELE DEU INDICIOS AI DA TEMPORADA, ALGUEM SABE QUANDO SERÁ?

  2. Já tem fotos da gravação desse episódio na net inclusive, só aguardando agora!!!

  3. Com certeza ai vem mais um temporada de deixar a gente de boca aberta

  4. Leonardo

    se £340.000 é demais pra ti jeremy
    aqui no brasil vai ser vendido a mais que um veyron fora

  1. Pingback: Jeremy Clarkson e os carros para o mundo real « Top Gear Brasil | Top Gear legendado é aqui…

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